Cutia feminista

Texto de Adla Georginni para as Blogueiras Feministas.

Eu deveria ter uns seis ou sete anos quando um dia, ao sair do trabalho, meu pai me levou até um sebo que acabara de abrir na cidade. Naquela época, morávamos em Anápolis (GO), e ele sempre teve o hábito de comprar livros para mim, tanto que se hoje sou viciada em leitura, a maior parcela de culpa é dele.

Chegando ao sebo, meu pai deixou que eu escolhesse alguns livros, não me lembro dos outros, mas um deles escolhi pelo título engraçado. Era algo como “O noivo da cutia”. Levei para casa. Como eu tinha gostado tanto, resolvi ler primeiro.

Capa do livro 'O Noivo da Cutia' de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.
Capa do livro ‘O Noivo da Cutia’ de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.

A estória é basicamente assim: o jabuti e o teiú vivem competindo pela mão da cutia, um diz ser mais rápido, o outro mais forte e em nenhum momento um deles pergunta se a cutia está interessada, simplesmente continuam brigando e se desafiando. Até que uma hora os dois cansam e decidem confrontar a cutia. Eles vão até a casa dela e dizem autoritários que eles estão cansados de competir e que ela precisa pedir para o pai dela escolher um deles para ser seu marido. Mas eis que aí está melhor parte. A cutia responde que ela não vai escolher ninguém, pois não tem obrigação de casar com nenhum deles, que o tempo em que o pai escolhia o marido da filha havia passado e que hoje as mulheres têm o direito de escolher com quem vão casar, se querem casar ou não, que as mulheres têm a liberdade de fazerem o que quiserem e não o que o marido ou qualquer outro homem deixa ou manda. Então, ela terminou dizendo que não queria casar, virou as costas e seguiu seu caminho. Simples assim.

Quando eu terminei de ler, havia ficado sem palavras. Reli a fala da cutia várias vezes. Achei aquilo sensacional. Imagine para uma criança de seis ou sete anos que somente obedecia aos pais (muito religiosos), o que significava ter um pouco de liberdade. Eu não sabia o que era ser feminista naquela época, mas hoje sei que foi no momento em que terminei de ler o livro que uma faísca do feminismo se ascendeu em mim.

Encontrei tanto da cutia em mim, eu queria ser a cutia, queria ter a coragem de dizer que eu era dona de mim mesma, das minhas escolhas. Que quando eu crescesse casaria se quisesse, seria escritora e viajaria pela Europa. Foi naquele instante que eu descobri que tinha vontade própria, que eu poderia abraçar minha liberdade.  Foi ali, naquela última página, que tive minha primeira experiência com o feminismo.

Autora

Adla Georginni é uma feminista recém-formada, estudante de jornalismo e metida a blogueira. Rainha do drama em tempo integral, é fã de Agatha Christie e do mundo policial. Apaixonada por história, reclama da vida no @adlageorginni e escreve seus dramas reais (ou não) em http://adlageorginni.blogspot.com.br/