Escolher não abortar foi a decisão mais ingênua que tomei na minha vida

Texto de B. Z. para as Blogueiras Feministas.

Escolher não abortar foi a decisão mais ingênua que tomei na minha vida. Essa constatação, que fiz em algum dia distraída e quase inconscientemente enquanto lia algum texto, me revirou sobre o horror do que havia pensado, e desde então, está aqui, em mim: um sentimento que precisa ser constantemente elaborado e escrito. Ela criou um espaço para o ódio e a crueldade comigo mesma; de ter escolhido ser mãe, de ser tão infantil, de precisar assumir um lugar irredutível que me traz culpa e ressentimento.

Foto de Ryan no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Ryan no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Três anos atrás decidi por mim continuar com a gravidez que vinha de uma relação muito forte e – como gostava de acreditar – muito profunda. Eu achava que a decisão era nossa, mas algum tempo depois ele não hesitou em dizer que era minha. Naquele ponto de novo me revirava em culpa e aquela construção parecia fazer menos sentido. De menos em menos sentido, em pressões externas sobre formas de sobrevivência, precisando arrumar dinheiro, precisando construir a vida, nossa relação se converteu numa relação abusiva. Não nos suportávamos, ou melhor: o presente era insuportável, embora ainda tivesse em algum lugar uma vontade muito sincera de estar bem, de criar nossa filha juntos. Éramos os dois ingênuos.

Não considerávamos a violência uma coisa tão séria assim. Ela já era rotina em nossas casas antes que nos conhecêssemos. Se a mãe dele vivia em cenas de guerra com os companheiros e se ele mesmo já tinha saído na porrada com o pai, minha mãe apanhou do marido; meus irmãos, muito mais velhos que eu, sempre me bateram. Era assim mesmo. Eu não conseguia me colocar como vítima de um abuso porque acreditava que estava construindo aquele abuso todo dia – fazendo o jogo do ciúme e da apropriação, desencadeando agressões. Tivemos outros momentos depois, de afastamento, de indiferença, até a indiferença crescer em mim a ponto de não reagir mais a suas provocações. Em um dia, numa crise de ciúme, foi ele quem começou a agressão – nesse dia a corda se arrebentou e no mesmo momento ele se deu conta. Acho que eu já tinha percebido muita coisa àquela altura – mas seguir numa construção familiar heteronormativa era, para mim, o único caminho possível.

A corda arrebenta do lado mais fraco. Da mulher que cria a filha, para onde jogam todas as faltas da criança, para qualquer problema que surja. Foi com a separação que finalmente percebi o tamanho daquilo que havia assumido. Do que sustentava a cada dia numa relação que privilegia o homem e o rebento. Quando eu falhava, apontavam para a minha filha — sempre chorando — e duplicavam a culpa. Queriam me reduzir a isso, como fui reduzida por muito tempo, quando ela era muito pequena: a figura mais calada, solapada, solitária, que é pouco mais que um objeto. Pouco mais que uma chupeta que enfiam na goela da criança que não para de incomodar, pouco mais que a televisãozinha acoplada ao carro.

O que mais me incomodava era ver essa construção de identidade reduzida ao significante-mestre: Mãe. Aqueles assuntos de pracinha, as mil vertentes das doenças, o problema da comida, da amamentação, escolinha, brinquedinhos. A construção da mulher-mãe-burguesa. Recusei todas essas discussões; todas elas partem de uma construção social que coloca a criança como consumidora em potencial e o pai – sem gênero, sem história, sem classe – como provedor ilimitado. Recusei e recuso para reconstruir um não-lugar contra-identitário. O feminismo está aqui como aquilo que me coloca em movimento e abre caminhos de possibilidade e contato com outras histórias recalcadas do sentido geral – em contato com a história de outras recusas.

Me enxergar como uma peça do jogo do sentido dos outros rompeu com um suposto “nós”. A mesma ilusão de nós que sustentava os abusos. Não fomos ingênuos, fui ingênua. Nunca se está, de fato, com o outro. A relação com o outro vai ser sempre atravessada pelos signos de poder, inclusive e principalmente onde se acredita estar indo fundo. A relação revira todos os limites da intimidade e cria, no fundo sem fundo, uma possibilidade de nova identidade. O problema é que tudo que se quer fixo corre o risco de se tornar obsoleto no minuto seguinte – onde sua individualidade e heterogeneidade completa vai ser mutilada quando o outro não a reconhece mais.

Preciso, assim, assumir que fui ingênua sem me odiar por isso: colocando o sentido em movimento, podendo ressignificá-lo. Aos dezenove anos, escolhi não fazer um aborto, e foi a decisão mais ingênua da minha vida. Depois dela, fui e sou a todo momento totalmente outra.

Autora

B. Z. prefere ficar anônima. Precisou escrever para dar outros passos e conquistar um outro lugar de fala.