As materialidades das identidades

Esse texto faz parte da coluna Transfeminismo. Texto de Bia Pagliarini. 

A partir do momento em que nossa sociedade se estrutura através de normas de gênero e sexualidade que elegem a heterossexualidade, monossexualidade, cisgeneridade, alossexualidade, masculinidade e a binaridade como destinos esperados de todos os indivíduos, não podemos dizer que falar sobre identidades homossexuais, bissexuais, transgêneras, assexuais, femininas e não binárias seja algo da esfera do puramente individual.

Se a sua identidade é tida como um tabu social, ela é objetivada enquanto uma questão social. Se uma identidade funciona como tabu, é porque ela é implicada, pela sua própria exclusão ou recalcamento, no funcionamento “normal” da estrutura social.

Eu não entendo porque ainda em 2016 tem gente que a acha que falar sobre binarismo, bifobia, transfobia ou certos assuntos não tem “materialidade” suficiente.

Sim, pode ser que existam análises não materialistas sobre esses assuntos; mas o que eu quero demarcar é que é urgente falar sobre esses assuntos a partir de uma teoria feminista materialista das identidades e devires minoritários. Se é correto afirmar que possam existir análises não materialistas destes assuntos, é igualmente incorreto afirmar que uma análise seria necessariamente não materialista apenas por tratar deles. Isso seria o mesmo que abdicar da própria teoria materialista que se julgava reivindicar. Não faz sentido nenhum afirmar isso se nós entendemos que a materialidade da nossa sociedade se estrutura através de normas que concernem a estes vetores minoritários. Não faz sentido falar que certos assuntos sociais – como os objetos de nossa teoria – não teriam materialidade.

Foto da página Trans Student Educational Resources.
Foto da página Trans Student Educational Resources.

Falar sobre essas formas de identidade é desde sempre uma questão política. Então eu não entendo porque algumas questões são vistas como supostamente menos “materiais” que outras; mais “individualistas” que outras; mais “pós-modernas” que outras.

Materialidade, como eu já disse, não é questão de estar mais ou menos presente como um determinado conteúdo em nossas análises; materialidade não é sobre conteúdos e assuntos que seriam “mais ou menos” materiais; materialidade, ao contrário, é a FORMA como o todo das análises são feitas. Todos os assuntos relevantes para a teoria materialistas são materiais. E por isso não faz sentido opor identidade/subjetividade a materialidade/objetividade. Como eu disse: se a sociedade se estrutura necessariamente através da gestão de certas identidades, falar sobre essas identidades se objetiva como uma questão social.

Falar sobre identidades não significa que estamos levando uma perspectiva que toma as identidades como pairando no ar, que se fundariam sob um sujeito dono de si, criador de suas identidades num vácuo. Falar sobre identidades não implica considerar as identidades como fundadoras da realidade social. Nós podemos compreender como a realidade social estrutura certas formas de identidade (ou seja, como ela as materializa). A identidade emerge necessariamente através de um contexto histórico, cultural e político específicos e determinados.

Acontece que todos esses determinantes não são capazes de serem deterministas: a história não é um jogo de cartas marcado; a sociedade é feita de inúmeras divisões, não é homogênea e o político atesta que as relações de poder são inerentemente instáveis, ou seja, elas podem mudar de acordo com o tempo. Ou seja: afirmar que existem determinantes não implica considerar que a história, o social e o político são deterministas, porque há jogo possível para a luta e transformação social a partir da resistências das minorias. E aqui, falei sobre minorias do campo do gênero e sexualidade: isso implica considerar que estes devires minoritários são capazes de resistirem a estas normas sociais, ao proporem formas outras e diferentes de constituição de subjetividade.

Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 03/04/2016.