Sigam-me os bons! E não esperem nenhuma mudança.

Texto de Mayra Cotta para as Blogueiras Feministas.

Se Bernie Sanders não for o candidato democrata nas eleições estadunidenses, é óbvio que seus eleitores e eleitoras irão entusiasticamente fazer campanha para e votar em Hillary Clinton nas eleições  gerais, certo? É evidente que eles não querem um republicano reacionário na presidência e por isso a única alternativa é votar em Hillary – e ficar muito feliz e contente por ter a opção de uma candidata que não acredita que todos os mexicanos são estupradores ou que não tentou proibir vibradores quando era procurador-geral do Texas.

Afinal, praticamente não há diferenças entre um candidato que lista como as maiores vergonhas da historia recente dos EUA o super-encarceramento de jovens negros e latinos e o apoio a ditaduras no Oriente Médio e entre uma candidata que tem entre seus financiadores de campanha os donos de presídios privados e a família real Saudita. É todo mundo democrata, não é mesmo? Não podemos gastar nossas energias resistindo contra quem está do nosso lado da luta quando o verdadeiro inimigo é o conservadorismo republicano. Certo?

Na verdade, não. Vem crescendo no país um movimento chamado “Bernie or Bust” – algo tipo “Bernie ou nada” – cujas apoiadoras e apoiadores gritam para os quatro cantos das redes sociais que não votarão em Hillary Clinton, que seu envolvimento com as eleições é parte de um processo político mais radical do que a escolha pelo menos pior. Para estas pessoas, em sua larga maioria jovens que não são filiados a nenhum partido, a “maior festa da democracia” não interessa se for para ser apenas a legitimação de um jogo já jogado, no qual a agenda da real politik é um super trunfo utilizado a todo momento em que mudanças de fato profundas são demandadas.

 Bernie Sanders e Hillary Clinton. Foto do site Fox6 Now.
Bernie Sanders e Hillary Clinton. Foto do site Fox6 Now.

Os que se já se beneficiam o bastante do sistema estabelecido e os que se tornaram cínicos demais para acreditar na revolução política projetada na campanha de Bernie Sanders se escandalizam com a recusa deste movimento em abraçar a candidata que pode impedir a tomada da presidência pelos republicanos racistas, machistas e homofóbicos, os republicanos que prometem acabar com todos os benefícios estatais e deixar que o dito livre mercado conserte os problemas sociais. Acusam a juventude de não valorizar a conquista de direitos e as duras lutas que foram necessárias para que fossem assegurados, chamam de irresponsáveis todos os que não entendem o quão graves podem ser os retrocessos.

Acredito que a sensação dos eleitores e eleitoras de Bernie ao ouvirem a exigência de adesão automática à Hillary, depois de quase um ano envolvidos ativamente na campanha, discutindo reformas estruturantes para a educação, a saúde, o mercado financeiro e o meio ambiente, é bem familiar a toda mulher que milita ou já militou em espaços de esquerda. Estamos sempre esperando a vez em que as nossas questões estarão no centro do debate, enquanto apoiamos as “pautas mais urgentes” e nos calamos para não atrapalhar a “luta mais imediata”. Quando apontamos o machismo na esquerda e a infiltração do patriarcado em todos os espaços e relações, somos acusadas de não entendermos quem são realmente os inimigos e de estarmos desperdiçando energia do lado errado. Somos todos de esquerda, não é mesmo?

Até quando, contudo, vamos esperar pelo momento de podermos ser radicais nos nossos anseios políticos? Quantas vezes o PSDB precisará ser derrotado no segundo turno até que que possamos brigar pela legalização do aborto? Quanto o Partido Republicano precisará ser destruído até que uma campanha presidencial realmente de esquerda não seja vista como uma aposta alta demais? Quantas tentativas de golpe precisarão ser derrotadas até que o racismo institucional que domina todas as relações entre Estado e cidadãos – do atendimento no hospital às práticas de execução sumária da polícia – esteja no centro da comoção política? Quantas concessões faremos ao feminismo neoliberal meritocrático até que possamos falar sobre as mulheres negras e latinas que ficaram fazendo o serviço doméstico e o trabalho reprodutivo para que algumas mulheres brancas privilegiadas pudessem avançar em suas carreiras?

E quantas mais vezes precisaremos marchar, gritar e mostrar que somos milhões e estamos organizadas para que este tal campo progressista entenda que irresponsáveis são os que diante de uma revolução política ou diante de um levante feminista insistem na distopia de que mudanças profundas são arriscadas demais.

Autora

Advogada feminista, entusiasta da Política e resistentemente otimista quanto à possibilidade de um mundo melhor. Formada em Direito pela Universidade de Brasília, mestre em Direito Criminal pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e doutoranda em Política pela New School for Social Research, em Nova York.