Documentário Bambas e o machismo no samba

Anná Furtado é cantora, percussionista e sambista. Recentemente nos escreveu para falar de seu projeto, o documentário Bambas, sobre machismo no Samba: “acredito na potência que este tema tem de dar visibilidade a muitas mulheres negras da nossa história”.

O samba, um dos ritmos mais populares do Brasil, como qualquer outro espaço reproduz muito machismo, invisibiliza o trabalho de muitas mulheres, especialmente como compositoras. Porém, elas sempre estiveram presentes na história do samba.

Kelly Adriano de Oliveira, doutora em ciências sociais pela Unicamp, afirma que tanto as mulheres quanto a religiosidade afro-brasileira tiveram um grande papel para que o samba conseguisse resistir, porque era dentro dos terreiros das casas das tias baianas — cujo símbolo ficou marcado em Tia Ciata –, no espaço privado e escondido, que o samba podia acontecer.

O samba continua sendo hoje um gênero musical no qual há a predominância de homens, tanto dentro da indústria, como nos espaços onde ele é tocado popularmente.

“A abertura do samba para a participação das mulheres, principalmente negras, continua difícil e, embora sempre haja nomes em destaque, como Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Teresa Cristina, ainda temos muito pouco”, lamenta Kelly. Referência: Raízes do Samba: Qual foi a importância histórica das mulheres negras no samba?

Achamos o projeto tão bacana que decidimos fazer uma entrevista com Anná para você conhecer mais sobre o documentário Bambas e apoiar sua realização:

1. Como surgiu a ideia do projeto?

Acredito na arte como potência transformadora da sociedade. Por isso, a ideia deste projeto surgiu da minha necessidade de denunciar uma opressão muito presente na minha vida.

Antes de entrar no Samba, eu já estava mergulhada no Feminismo. Sou militante independente e já militei em alguns movimentos, levo isso muito a sério. Por isso, eu me choquei quando entrei de cabeça no Samba, porque percebi como as mulheres precisam de força para resistir neste universo. A começar por ter que ouvir letras escancaradamente sexistas como “Se essa mulher fosse minha, tirava do samba já, já/ dava uma surra nela que ela gritava: chega!”, ou “Você não passa de uma mulher”. Além dessas e outras letras absurdas, existe uma intimidação para a mulher que quer sentar numa roda e tocar um instrumento. Mulher no Samba só pode cantar e olhe lá! Pra tocar numa roda tem que chegar chegando e ser muito empoderada. Sem falar no assédio, que dispensa comentários.

Mas não foi sempre assim. Na realidade, o Samba pertence (e muito!) às mulheres. O Samba nascido no Rio de Janeiro surgiu essencialmente por causa das Tias Baianas, que eram mulheres negras que trouxeram do nordeste muitas influências culturais africanas, que na mistura urbana das favelas deram origem a este Samba. Estas mulheres cantavam, dançavam, cediam suas casas para festas que duravam dias, e protagonizavam a batucada. Mas muita água correu na história do Samba, e muitas mudanças ocorreram. De certa forma, o projeto pretende conscientizar acerca deste passado para, quem sabe, gerar mudanças no futuro do Samba.

Imagem com diversas mulheres sambistas divulgada na página do documentário Bambas.
Imagem com diversas mulheres sambistas divulgada na página do documentário Bambas.

2. Como você descreveria o protagonismo da mulher negra no samba?

Todo estudo da história do Samba é unânime em afirmar que as responsáveis pelo surgimento do Samba no Rio de Janeiro foram as Tias Baianas. Estas Tias eram mulheres negras e nordestinas que vieram para o Sudeste no início do século carregando imensas tradições culturais africanas, no período pós Guerra de Canudos. A maioria delas era mãe de santo e portanto estavam imersas em ritmos e percussões africanas.

Nessa época, acontecia no Rio o “bota-abaixo”, série de medidas políticas que acabou com os cortiços do centro da cidade, dando início à formação das favelas. Nessa época, as manifestações culturais populares eram criminalizadas: andar com um violão ou um pandeiro dava cadeia, era ‘crime de vadiagem’. Por isso, foi de suma importância as Tias Baianas cederem suas casas no morro para as batucadas. Misturaram-se nestes quintais os maxixes, polcas, candomblé e outras brasileirices mais que deram origem ao Samba. Uma das Tias mais conhecidas foi Tia Ciata, que, reza a lenda, cantava, dançava, cedia a casa, cozinhava e promovia o batuque que começou a aglutinar nomes como Donga, João da Baiana e Pixinguinha.

Este protagonismo das Tias Baianas foi sendo alterado à medida que surgiam e se institucionalizavam as Escolas de Samba. As mulheres passaram a ocupar outras posições, sempre resistindo a pressões machistas que ameaçaram e ameaçam as estruturas essenciais do Samba.

Ou seja, o protagonismo das mulheres negras no Samba está nas suas estruturas, na sua origem. E a luta por este protagonismo se estende até os dias atuais.

3. Das entrevistadas, há alguma que mais te emocionou? Ou que tem um significado especial para você?

Nós temos uma lista infinita de possíveis entrevistadas, pois o que não falta nesse mundo é mulher do Samba. Temos uma triagem mas ainda não fechamos a lista. Já entrevistamos algumas mulheres, cada uma com uma idade e vertente de Samba diferente.

Umas delas foi a grande Geovana, que é uma lenda viva do Samba. Ela é compositora de sambas como “Irene”, gravada pelo Zeca Pagodinho, e possui letras muito ousadas, como “Gosto de fazer amor/Quem tem carinho me leva”. A Geovana conheceu e conviveu com todo mundo do Samba, de Beto sem Braço a Clara Nunes. Ela respira Samba, é uma grande Mestra.

Também foi incrível filmar a Paula Sanches, que é uma cantora muito maravilhosa com um trabalho fantástico de Samba de Breque. Poucos sabem, mas a música “Maria de Vila Matilde”, que a Elza Soares gravou, foi feita pelo Douglas Germano para a Paulinha Sanches cantar. Tivemos a enorme honra de filmá-la cantando e interpretando essa música, foi emocionante.

Não posso deixar de falar da emoção que foi filmar Nega Duda, uma baiana que carrega na pele o Samba de Roda. A Nega nasceu dia 13 de maio (dia da abolição) e tem uma forte história de vida, além de ter uma voz espetacular, super rara, extremamente parecida com a da Clementina de Jesus. Se tem uma mulher que é empoderada, é essa Nega Duda!

Também tivemos a honra de filmar a Dona Inah, que dispensa comentários pela sua grandeza dentro do Samba. Enfim, são muitas mulheres de resistência para serem ouvidas, com histórias muito fortes e me sinto muito honrada de poder filmar essas heroínas.

4. Como você acha que as novas gerações de ouvintes interagem com a história do samba?

Acredito que o Samba que estamos abordando no filme, o Samba de Raiz, está cada vez mais elitizado. Então a relação das gerações atuais com ele é muito diferente do seu início. A começar pelo fato de que o Samba era criminalizado. Contam que o Mestre João da Baiana andava com seu pandeiro pelo Rio de Janeiro e era preso continuamente, porque era crime andar com violão ou pandeiro, crime de vadiagem. Até que um Senador que admirava suas músicas assinou o couro de seu pandeiro. A partir daí, quando era abordado pela polícia, João da Baiana mostrava a assinatura do Senador e saía ileso.

O Samba era, então, um estilo de vida, uma forma de resistência cultural negra. Hoje não existe mais perseguição: o Samba já foi cooptado pela Indústria Cultural, comercializado, transformado em produto. Isto faz com que as pessoas tenham uma relação mais superficial com ele. A população não ‘ouve’ Samba, ela ‘consome’ Samba.

Apesar disso, eu acredito muito no potencial subversivo do Samba (assim como no do funk e do rap), porque no fim das contas, trata-se de uma manifestação cultural vinda da parcela mais marginalizada da sociedade, que conseguiu se transformar num fenômeno mundialmente conhecido!

Então, ele mantem ainda sua capacidade de quebrar os padrões da indústria e gerar reflexão, tanto pela sua forma, cheia de influências africanas, quanto pelo conteúdo. Além disso tudo, o Samba tem uma coisa mágica, muito louca que leva muitas pessoas a dedicar a vida a ele. É algo inexplicável, mas quando ele fisga, não tem como correr: a gente passa dia e noite lendo, ouvindo, estudando, e quanto mais a gente conhece o Samba, mais a gente percebe que não sabe nada. Com certeza o Samba é um ponto fora da curva na indústria cultural.

5. O projeto se encerra no documentário ou você já está maquinando novas ações, como talvez um show com essas mulheres?

Nosso projeto “Bambas” (queira a Deusa!) não se encerra no filme, mas ainda não podemos divulgar nossos planos. A ideia do show é muito boa, vamos pensar nisso! Mas bem sabemos como anda a cultura no nosso país. De qualquer maneira estamos buscando parcerias e apoios para dar continuidade ao projeto.

A equipe do “Bambas” é formada por:

Direção/Roteiro: Anná Furtado

Produção/Montagem: Tânia Campos

1ª Assitente de Direção: Catarina Balbini

Direção de Fotografia: Tuta Piné

Direção de Arte: Isabella Bergo

Direção de Som: André Souza

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