Mulheres e quadrinhos: 2º Encontro Lady’s Comics

Desde 2010, o coletivo Lady’s Comics promove as mulheres nos quadrinhos. Não apenas personagens femininas, mas muitas mulheres que produzem na área.

Em 2014, organizaram por meio de financiamento coletivo seu primeiro encontro nacional com o tema: transgredindo a representação feminina nos quadrinhos. Em 2015, criaram o Banco de Mulheres Quadrinistas, o BAMQ!. Um espaço online que permite o cadastro de artistas, compondo um banco de dados. Por meio do BAMQ! é possível pesquisar de acordo com função, nome da artista, assinatura, cidade e estado. O projeto contempla não só quadrinistas, mas toda as artistas que trabalham na área: arte-finalistas, chargistas, coloristas, letristas e roteiristas.

Agora, elas partem para encontrar um público mais amplo, com apoio do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, no 2° Encontro Lady’s Comics. Porém, o objetivo continua, criar material e memória que se aprofunde na questão do gênero nos quadrinhos, bem como a representação feminina e o atual mercado para as mulheres que trabalham na área.

Para saber mais, batemos um papo com duas das Lady’s Comics: Mariamma Fonseca e Samara Horta.

As Lady's Comics. Da esquerda para direita: Mariamma Fonseca, Samara Horta e Samanta Coan. Foto de André Coelho.
As Lady’s Comics. Da esquerda para direita: Mariamma Fonseca, Samara Horta e Samanta Coan. Foto de André Coelho.

1. O 2° Encontro está acontecendo quase 2 anos depois do primeiro e parece bem maior por conta das parcerias. Como vocês perceberam os legados deixados pelo primeiro evento?

Mariamma – Acreditamos que o primeiro encontro nos apresentou uma carência de espaços físicos para debater os assuntos relacionados às mulheres e quadrinhos. Com ele vimos que os outros eventos passaram a repensar sua programação e convidadas, trazendo temas como a representação.

2. Estamos vendo personagens femininas ganhando mais atenção nos quadrinhos, recentemente foi anunciada que uma jovem cientista negra substituirá o Homem de Ferro, o que vocês estão achando disso? É algo crescente ou apenas uma fase?

Samara – Quero acreditar que é algo que não vai parar. Que é muito mais que uma moda. É algo recente e não dá para saber ao certo. A verdade é que as grandes editoras dos quadrinhos norte americanos começaram a entender que há mercado para a representação feminina. Por muito tempo, fizeram quadrinhos pensando em um público específico: homem, branco, hétero e extremamente jovem. E sempre existiram personagens femininas, mas muitas vezes como vítima, vilã ou alvo sexual. Além disso, sempre tiveram um visual irreal e objetificado. Atualmente, notando o número crescente de leitoras, começaram a fazer personagens mais reais. Ainda estamos longe do ideal, mas acredito que ao se sentirem representadas, mais mulheres vão ler e, automaticamente, mais mulheres vão fazer quadrinhos. Estou otimista!

3. Ao mesmo tempo que personagens femininas ganham mais espaço, o mesmo vem acontecendo com mulheres quadrinistas, roteiristas, etc.?

Samara – Sim. Com a internet, muitas mulheres acharam um espaço para mostrarem seus trabalhos. Quadrinistas, coloristas, roteiristas e pesquisadoras puderam alcançar mais e mais pessoas. Não só isso, mas também muitas criaram a coragem que faltava para mostrar o que fazem. Afinal, vivemos em uma sociedade patriarcal e, por isso, muitas vezes somos levadas a acreditar que não conseguimos e ficamos inseguras. A aceitação é enorme, pois muitas mulheres queriam ler quadrinhos onde se reconhecem, com as quais se identificam. Mas pensando ainda em editoras, o espaço continua pequeno para publicações. Mas com a preocupação recente de eventos que não fazem diferença entre gêneros, acredito que as editoras vão notar mais as mulheres. Já temos alguns trabalhos nesse sentido, como o da editora Nemo. Vamos andando, mesmo que a passos lentos.

4. Quais as iniciativas que estão sendo propostas e que tem ajudado a trazer mais mulheres para os quadrinhos?

Mariamma – Novos espaços na internet tem feito boas matérias e trazido questões relacionadas ao assunto, um exemplo é o “Collant sem Decote”. Fora da web, iniciativas como o projeto “Vidas, Quadrinhos e Relatos” do coletivo ZiNas, oferecem oficinas de quadrinhos para mulheres, lgbts e deficientes auditivos. É importante ampliar o campo de atuação dos quadrinhos para que novas meninas se sintam encorajadas a produzir. Pensando nisso o Lady’s Comics tem um projeto chamado QUATI – Quadrinhos, Educação, Traços e Imaginação, que busca atuar em regiões mais afastadas de Belo Horizonte oferecendo também oficinas para crianças e professores da rede pública. Mostrar as meninas a importância delas contarem suas próprias histórias é uma ótima maneira de tornar os quadrinhos mais representativos. E quando apresentamos produtoras mulheres, o público feminino acredita que os quadrinhos podem ser um ambiente mais acolhedor e igualitário. Temos um longo caminho pela frente, porque as propostas são bem pontuais apesar de ter muita menina debatendo o assunto.

5. Quais as expectativas para esse novo encontro?

Mariamma – Estamos ansiosas e acreditando que nesse novo encontro ampliaremos nosso público. Não adianta a gente ficar falando a mesma coisa para as mesmas pessoas. Buscamos oferecer uma programação para o público em geral, mas com uma atenção para as crianças, mães e educadores. Tentamos ser mais diversas e trazer autoras na América Latina e Angola, de diferentes regiões do Brasil como Nordeste, Centro Oeste e Sul e com atuação em diferentes épocas, como quadrinistas que produziram na ditadura. Estamos bem felizes com o resultado e com boas expectativas.

O 2º Encontro Lady’s Comics traz ainda a mostra inédita no Brasil “Chicks on Comics”, que já passou por Berlim e Argentina. A exposição é formada por um coletivo de nove quadrinistas de diferentes países que atuam juntas desde 2008. Clara Lagos, Power Paola, Maartje, Sole Otero, Caro Chinaski, Anna BB, Delius, Chiquinha e Julia Homersham apresentarão 20 obras aos brasileiros. Se estiver em Belo Horizonte, não deixe de ir:

2° Encontro Lady’s Comics

Data: 29 a 31 de julho de 2016

Horário: 9h às 20h

Local: Centro de Referência da Juventude. Rua Aarão Réis – Centro – Belo Horizonte / MG.