Duas mulheres viajando sozinhas… Como assim? Como uma mulher quer viajar sem companhia?

Texto de Lara Ramos para as Blogueiras Feministas.

Fiz uma viagem de 50 dias nas férias, passando cerca de 20 dias pela Bolívia e quase um mês no norte do Brasil (Acre, Rondônia, Amazonas e Pará). Ainda estou processando mais da metade das coisas que vi e vivi. Mas, pensei em escrever um pouco sobre como foi. Escrever sobre como foi viajar sendo mulher.

Começamos nos planejando uns quatro meses antes. Nas aulas, nas festas, conversando em casa. Eu queria conhecer o norte do Brasil, a Amazônia, viajar de barco descendo o maior rio do mundo. A Thais queria o deserto de sal na Bolívia, as paisagens do Peru e o norte da Argentina. O Willy queria ir sem direção. E assim fomos juntando mais pessoas interessadas.  No final, entraram no grupo o Edi, a Ana e o Fellipe. A Ana comprou a mochila um dia antes, o Fellipe tomou a vacina (obrigatória) no dia da viagem e o Edi chegou de skate no aeroporto. Quase perdemos o vôo (ainda bem que a Thais estava atenta), mas conseguimos embarcar.

Chegando na Bolívia, estava tranquila. Primeiro mochilão, com pessoas que eu confiava, eram zoeiras e gostavam de dormir. Já na primeira parada encontramos o Michel, mestre em medicina chinesa de Belo Horizonte, que se identificou com o grupo e continuou a viagem com a gente. Virada do ano, comidas tradicionais, cultura, ônibus infinito, van lotada, bebês bolivianos. O tempo passava rápido e devagar ao mesmo tempo. Íamos seguindo com o roteiro “planejado”, mas era muito mais interessante deixar as coisas acontecerem.

O plano era ir pro Acre depois, tentar chegar a Rio Branco antes do vôo já marcado do Fellipe. O Edi e a Ana acabaram indo pro Peru com o Willy e a Sté (que encontramos no meio do caminho, em La Paz). Eu e Thais queríamos aproveitar mais os lugares no Brasil.

Se você ainda está lendo o texto deve estar se perguntando porque não estou fazendo as reflexões acerca do fato de ser mulher. É que até o momento, antes do Fellipe ir embora, não tinha me questionado sobre o fato de ser um problema ser mulher e querer viajar. Por que pensaria nisso antes? Estávamos em cinco pessoas, grupo grande, com dois homens. Dois homens. Seguro. Podíamos andar na rua, chegar tarde, pegar carona, conversar com todo mundo. “Podíamos”, olha o verbo que tive que usar.

Fellipe voltou pra São Luís, o irmão dele ia nascer naquela semana. Eu e Thais ficamos. Sim, duas mulheres viajando sozinhas no norte do Brasil. “Duas mulheres viajando sozinhas no norte do Brasil”, parece notícia do Globo Repórter.  Como assim? Como uma mulher quer viajar sem companhia?

“As mochileiras assassinadas no Equador, para os meios massivos de comunicação, “viajavam sozinhas”. Eram duas mulheres, maiores de idade, viajando juntas. Entretanto, estavam “sozinhas”. Sozinhas de quê? Quem faltava? Eram duas. Mas como nasceram mulheres, ser duas não foi suficiente. Para não estarem “sozinhas”, algo lhes faltava… Adivinhem o quê.” (Mariana Sidoti via publicação do Think Olga no Facebook).

Então, a partir dali começamos a trocar ideia sobre como passaríamos a agir. Nosso horário limite era às 19 horas. Comer algo rápido e voltar pra pousada. Não trocar ideia com pessoas na rua. E toda a ideia de deixar as coisas acontecerem?

Rio Negro no Amazonas. Foto de Guga Carnicel, com autorização.
Rio Negro no Amazonas. Foto de Guga Carnicel, com autorização.

Pegamos um ônibus de Rio Branco para Porto Velho. Chegando em Porto Velho, a ideia era ir direto pro barco, para chegar a Manaus no mesmo dia. Mas o barco só ia sair no dia seguinte. Onde vamos dormir? Falaram pra gente que era tranquilo dormir no barco, que já estava lá para ser carregado. “Será?”. “Vamos ver se tem mais gente”. “Tomara que tenha mais alguma mulher pra ficar com a gente”. “Mas e os caras?”. “O que vamos jantar?”. “Nossa, não tem como sair agora do barco”. “Coloca uma roupa mais feia”.

Dormimos no barco, tinha mais gente lá. No dia seguinte, partimos para Manaus, quatro dias de viagem, subindo o rio Madeira. Não era um rio tão largo, então, em alguns momentos o barco ficava bem próximo da margem, dava pra olhar as comunidades ribeirinhas, a vegetação, alguns macaquinhos pulando. Pegamos as quatro noites de lua cheia. Sem nenhuma preocupação do “mundo externo”, aproveitando a viagem, nada iria acontecer dentro de um barco. Mas lá no subconsciente, vinha aquele medo. Medo de chegar um homem de noite, medo de simplesmente ir ao banheiro de noite. É por sentir medo que me sinto mulher?

Chegando a Manaus encontramos um hostel. “Vou deixar vocês sozinhas em um quarto separado. No quarto maior tá cheio de homem”. A moça que fez isso foi exagerada? A gente ia recusar? Não queríamos conhecer pessoas novas? Como agir? Depois de ir conhecendo alguns pontos centrais da cidade, fomos nos sentindo mais a vontade, não nos privando, mas sempre nos prevenindo. O próximo destino era Santarém, já no Pará, depois de um dia e meio de barco. Fomos com mais três amigos que estavam em Boa Vista.

Voltando agora com um grupo de cinco, e três homens, nossa cabeça foi ficando mais tranquila. Mas as reflexões não pararam. Os homens na rua pararam de dar em cima e gritar coisas nojentas porque estávamos com homens? E esse “estávamos” no sentido de pensarem que éramos casais, então respeitariam o homem não dando em cima da mulher?

Enfim, os pensamentos iam se acumulando. E olhando as comunidades ribeirinhas diariamente pelo barco mais questões apareciam. Eu estava lá como turista, conhecendo um pouco da cultura do norte, passeando de barco. E as mulheres que vivem lá? No meio da Amazônia. Que suporte elas tem? Seja violência psicológica ou sexual, pra quem elas vão gritar? Quem vai ler o texto delas no Facebook?

A viagem continuou para Belém e depois Ilha de Marajó. O clima estava bom, a viagem estava acabando e já estávamos voltando a pensar um pouco na realidade da volta. Aproveitamos bem os últimos dias, conhecemos as praias, comemos açaí e cupuaçu, trocamos experiências de viagem com os meninos. Último destino, depois de 50 dias.

Tem conclusão? A viagem evidenciou situações que nós, mulheres, vivemos diariamente, mas que, por ser diariamente, não achamos tão absurdas. E, por estar em outro contexto, com pessoas que não conhecia e com uma amiga, acabei levantando essas questões em mim. E mais além das questões, uma vontade de responder a elas. Uma vontade que passa pela tristeza, pela raiva e pela impotência. Mas uma vontade sincera de querer continuar viajando, de conhecer outras pessoas, de pegar carona, de ir numa praia de noite, de se entregar para as experiências. De fazer o que eu quero sendo mulher. De fazer o que eu quero por ser mulher. O que pode ser mais essencial do que ter a liberdade para existir sendo você?

“Peço a você que por mim e por todas as mulheres que foram caladas, silenciadas, que tiveram sua vida e seus sonhos ferrados, levante a voz. Vamos brigar, eu ao seu lado, em espírito, e prometo que um dia seremos tantas que não haverá uma quantidade de sacos plásticos suficiente para nos calar”. Ontem me mataram de Guadalupe Acosta. Homenagem às turistas argentinas Marina Menegazzo e María José Coni, que foram assassinadas no Equador, por existirem sendo mulheres.

Autora

Lara Ramos tem 21 anos e faz Engenharia Ambiental na USP de São Carlos. Se quiser entrar em contato: lararamosms@gmail.com