Algumas palavras sobre a invisibilidade lésbica

Texto de Bruna Quinsan e Babi Borges, ativistas sapatólogas.

Seria bem mais fácil iniciar este texto apresentando dados precisos de fontes confiáveis capazes de evidenciar um inquestionável retrato do preconceito e da discriminação contra mulheres lésbicas e bissexuais no Brasil atual. No entanto, criticar a invisibidade dessas mulheres começa por sequer poder encontrá-los. Nada ou quase nada se produziu neste sentido.

Dos diversos relatórios sobre a violência contra os oprimidos (como do Grupo Gay da Bahia, o Mapa da Violência ou Disque 100) tiramos dados que podemos usar para evidenciar como está a situação desses grupos no país e organizar a luta contra as opressões e por políticas públicas que as amenizem. Portanto, se não há dados sobre a brutal realidade das mulheres lésbicas não há justificativa para a criação e implementação de políticas públicas e qualquer ação de combate à lesbofobia.

Por mais que não se produzam dados sobre a violência lesbofóbica, a realidade é extremamente hostil para as mulheres que amam mulheres. Se por um lado somos motivo de nojo, por outro somos hiperssexualizadas e fetichizadas. A opressão vem de cedo, já na regra que aprendemos ainda crianças de que meninas gostam de meninos, daí vem a dificuldade de aceitar o desvio dessa regra e a rejeição da família. Nas ruas somos violentadas, no trabalho somos assediadas e em todos os lugares, invisibilizadas.

Junho/2013 - 11ª Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo. Foto de Danilo Vrpa/Folhapress.
Junho/2013 – 11ª Caminhada de Lésbicas e Bissexuais de São Paulo. Foto de Danilo Verpa /Folhapress.

Não há nenhuma atenção com a saúde da mulher lésbica. A lesbianidade e o prazer da mulher, em geral, são um mito e como consequência disso não há, por exemplo, informação ou métodos de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), se não artesanais, para relações entre mulheres e que garantam o exercício livre e seguro da sexualidade.

A opressão que sofremos está relacionado ao papel imposto às mulheres, que, por um lado, historicamente tem sua sexualidade negada, reduzida ao papel de reprodutoras e um papel voltado à submissão, como cuidadoras e educadoras. E por outro lado são reduzidas a objeto de prazer masculino e que estão na prostituição, vulneráveis a toda sorte de problemas sociais. Papéis todos estes desvalorizados na sociedade.

Contribui para a conservação da violência lesbofóbica crescermos sem referências positivas de mulheres lésbicas ou bissexuais, seja na história, na mídia, na política, nas artes ou no esporte. Quem foram as nossas professoras, médicas ou vizinhas lésbicas? Parece que não existimos ou que não interessa se nos relacionamos com outra mulher, mesmo que sejamos agredidas por isso. Mesmo nos movimentos de lutas por direitos, como o feminista, LGBT e de trabalhadores, somos hostilizadas e invisibilizadas. É como se ou fôssemos mulheres e trabalhadoras ou fôssemos lésbicas, como se as opressões não se somassem e não fossem tão interligadas.

Mas, a nossa liberdade não pode ser conquistada de forma independente da luta por direitos sociais, políticos e civis. Compreendemos que quando se retira verbas da saúde, da educação ou cresce o desemprego, que os governos atuam na contramão da transformação da realidade que acima descrevemos. Por isso, a luta pela emancipação das mulheres lésbicas deve ser ao lado dos movimentos feministas, contra o racismo, da juventude e dos trabalhadores e contra o sistema capitalista, que promove a exploração da maioria pela minoria e se beneficia das opressões, dividindo a classe.

Autoras

Bruna Quinsan é graduanda em Ciências Sociais na UFSCar e militante da juventude do MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista).

Fabiana Borges (Babi) é cientista social formada pela USP e mestranda em Administração Pública pela UFSCar. Trabalha na UFABC. Faz parte da Secretaria Nacional LGBT do PSTU e do Movimento Mulheres em Luta.