Precisamos conversar sobre o que é a visibilidade lésbica

Texto de Maíra Mee para as Blogueiras Feministas.

Para falarmos sobre a visibilidade e a invisibilidade das mulheres lésbicas, acho que a primeira coisa que precisamos questionar é do que estamos falando quando dizemos “visibilidade”.

Termos guarda-chuva, como “visibilidade” ou como “LGBT” são úteis para facilitar a comunicação, mas, para sabermos quais são os problemas que se escondem por detrás deles, precisamos desdobrá-los sem preguiça e sem medo.

A visibilidade não pode ser entendida só como aparecer na novela ou na propaganda de perfume. Quando estamos nos consultórios – públicos e privados – ginecológicos, psicológicos, psiquiátricos e afins, somos invisíveis porque os profissionais de saúde não sabem em que somos iguais a outras pessoas e em que somos diferentes. Na justiça somos invisíveis porque os juristas não entendem ou são coniventes com as violações de direitos que sofremos. Nas nossas famílias, escolas, trabalhos a invisibilidade da nossa realidade faz sofrermos agressões, expulsões, demissões ou só conseguirmos cargos com remuneração mais baixa (muitas vezes porque algumas de nós não são mães ou porque acreditam que não vamos ser).

Cada uma dessas invisibilizações são violências que vivemos nas nossas vidas diárias e nós precisamos chamar cada uma pelo seu próprio nome para podermos olhá-las de frente e saber como combatê-las.

Junho/2015 - 13ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, na Avenida Paulista. Foto de Paulo Pinto/Fotos Públicas.
Junho/2015 – 13ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, na Avenida Paulista. Foto de Paulo Pinto/Fotos Públicas.

Ao mesmo tempo em que nos aprofundamos nas nossas necessidades para elaborarmos as nossas demandas, não podemos perder de vista que a maior parte das opressões específicas que as mulheres lésbicas sofrem vem dos estereótipos de gênero, da imposição de papéis de gênero, um problema que compartilhamos com as mulheres bissexuais, transexuais, travestis e com todas as outras mulheres. Então, nossa luta tem que ser feminista e lado a lado com todas as mulheres.

Também temos que ter sempre em vista que todas as opressões – a lesbofobia, a bifobia, a transfobia, o machismo, a misoginia, o racismo, o elitismo, a xenofobia, o capacitismo e todas as demais – cumprem uma função muito conveniente para o capitalismo. Todo mundo que é “cidadão de segunda categoria” custa menos na folha de pagamento e isso é absolutamente fundamental para a manutenção do lucro da classe dos proprietários.

Então, uma luta consequente e eficiente pelo fim da invisibilidade lésbica também tem que participar da luta comum de todas as pessoas oprimidas e exploradas pelo fim do sistema baseado na exploração de classe.

Nestes dias em que nós falamos sobre a visibilidade lésbica, eu gostaria que nós falássemos sobre a importância da existência e da articulação dessas duas instâncias. Uma na qual a gente se compromete a investigar profundamente quais são as verdadeiras necessidades das mulheres lésbicas, especialmente as da classe trabalhadora e em toda a sua diversidade: negras, indígenas, imigrantes, mães, transgêneras, com deficiência etc. E a segunda, na qual a gente compõe as lutas mais amplas sem perder a nossa individualidade, apoiando outras mulheres e homens cujas opressões têm a mesma origem que as nossas e recebendo o apoio delas de deles.

Vamos?

Autora

Maíra Mee é militante marxista feminista e lésbica.