SENALE/SENALESBI: 20 anos de luta e desconstrução do machismo, do racismo e da LBfobia

Texto de Marinalva Santana para as Blogueiras Feministas.

Entre os dias 09 e 12 de junho de 2016, Teresina, capital do Piauí, sediou o 9° Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais – SENALESBI. Esta edição do Seminário foi a primeira a garantir o co-protagonismo das mulheres bissexuais, inclusive no nome e na sigla.

Como sabemos, da primeira à 7° edição do evento usava-se o nome: Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE. No 8° Seminário, realizado em 2014, na cidade de Porto Alegre, usou-se o nome: Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais, mas a sigla SENALE foi mantida. Na plenária final de Porto Alegre, reconhecendo que as mulheres bissexuais estiveram presentes desde a primeira edição do evento, mas eram invisibilizadas, inclusive no nome do Seminário, deliberou-se pela mudança do nome, que passaria a ser chamado, a partir desta edição do Piauí: SEMINÁRIO NACIONAL DE LÉSBICAS E MULHERES BISSEXUAIS – SENALESBI.

Em duas décadas de existência, o Seminário se consolidou como o maior e mais importante evento do segmento de lésbicas e mulheres bissexuais no Brasil. Além de favorecer o encontro de idéias e proposições, oportuniza a elaboração de estratégias de atuação conjunta que visam garantir e ampliar direitos de lésbicas e mulheres bissexuais.

O 9° SENALESBI aconteceu em uma conjuntura adversa, posto que o avanço das pautas conservadoras tem contribuído para a ameaça de muitas conquistas alcançadas ao longo de nossa organização. Com o tema “20 anos de luta e desconstrução: desafios e perspectivas”, o Seminário mobilizou mais de 170 mulheres de todas as unidades Federação, exceto Amapá e Rondônia.

Toda a programação do 9° SENALESBI foi pensada a partir de 02 eixos que serviram para nortear os debates e demais atividades: 1) Movimento de lésbicas e mulheres bissexuais feministas; 2) Negritude e Visibilidade.

Mais que balizar os debates, os eixos escolhidos sinalizam para a assunção de pautas importantes para nós, lésbicas e mulheres bissexuais. Uma, óbvia, mas necessária de ser explicitada na atual conjuntura: nossas bandeiras são as bandeiras do feminismo. Outra, no sentido de reconhecer que o racismo é fator estruturante das desigualdades e enfrentá-lo é condição sine qua non para debelar as discriminações e, por conseguinte, aprofundar na consolidação da democracia (tão seriamente ameaçada neste momento…).

Assumir de forma mais incisiva o enfrentamento ao racismo foi um passo importante na trajetória de 20 anos de construção do Seminário. Mas é preciso avançar ainda mais… Não basta incluir nos eixos de discussão essa pauta. É preciso que todo o processo de construção das próximas edições do SENALESBI leve em consideração, por exemplo, que o racismo obstaculariza a participação de muitas lésbicas e mulheres bissexuais negras e indígenas que, por vivenciarem a opressão no cotidiano, sequer conseguem acessar os mecanismos de participação em eventos como o SENALESBI.

Junho/2016 - Atividade de encerramento do 9° SENALESBI com a 15ª Parada da Diversidade de Teresina/PI. Foto de Diego Rodrigues/R2 Comunicações.
Junho/2016 – Atividade de encerramento do 9° SENALESBI com a 15ª Parada da Diversidade de Teresina/PI. Foto de Diego Rodrigues/R2 Comunicações.

Registra-se, por oportuno, que, durante a construção do 9° SENALESBI, cenas abjetas foram patrocinadas por inscritas que não se autorreconheceram negras quando da inscrição, mas depois se declararam negras, tão somente com intento de conseguir passagem aérea para o deslocamento até Teresina, porque sabiam que esse foi um critério estabelecido pela Comissão Organizadora para a concessão de bolsas às inscritas no Seminário. Esse episódio reprovável é emblemático e nos faz ver que a primeira lição a darmos conta é superar o racismo dentro do próprio movimento.

Também se destaca como aspecto importante desta 9° edição do Seminário a programação cultural que aconteceu durante os quatro dias do evento. Por acreditar que a arte pode sim ser uma importante ferramenta de luta contra as opressões, a Comissão Organizadora do SENALESBI montou uma programação cultural que contemplou variadas expressões: música, dança, teatro, poesia. As apresentações foram diluídas em todos os turnos, mas concentradas fortemente durante as noites do evento.

Avalia-se que a parte cultural, além de oportunizar às participantes a apreciação de variadas expressões artísticas do Piauí (Estado-sede), também contribuiu enormemente para aliviar as tensões acumuladas ao longo do dia, por conta da pauta densa de discussões. Contribuiu ainda para aproximar as mais de 170 participantes do Distrito Federal e dos 24 estados do Brasil.

No último dia do Seminário foi aprovada a “Carta de Teresina”, que explicita os principais temas debatidos no evento, além de elencar os mais importantes pontos de congruência do conjunto das participantes.

Em 2018, Salvador é nosso próximo destino. A plenária final do 9° SENALESBI aprovou que o 10° SENALESBI ocorrerá na Capital baiana, tendo como entidades proponentes a Liga Brasileira de Lésbicas, do Fórum de Lésbicas e Mulheres Bissexuais da Bahia e Diadorim.

O que se vislumbra no momento é uma conjuntura mais adversa ainda para realização do 10° SENALESBI. Apostar na auto-organização pode ser uma saída importante, face a uma eventual escassez de apoios advindos do Poder Público. Também pode ser uma oportunidade ímpar para que exercitemos a tão propalada sororidade feminina, usada como um mantra por muitas, mas praticada por poucas.

Autora

Marinalva Santana, Coordenadora Geral do Matizes e Membro da Comissão Organizadora do 9° SENALESBI/2016.