#BlogFem entrevista candidatas feministas: Amara Moira

Esse mês, estamos publicando uma série de entrevistas com candidatas a vereadoras de várias cidades brasileiras, que declaram-se feministas, com o objetivo de publicizar propostas feministas e incentivar maior participação das mulheres na política.

Amara Moira é candidata a vereadora pelo PSOl na cidade de Campinas/SP.
Perfil no Facebook: Amara Moira.

1. Você pode fazer um resumo sobre sua trajetória política até essa candidatura?

Faz apenas dois anos e meio que comecei minha transição, que pedi pra primeira pessoa me chamar de Amara, mas esse pouco tempo foi transformador na minha maneira de existir no mundo. Antes, vivendo como o homenzinho padrão, parecia que meu lugar ao sol estava garantido, agora eu tenho que me superar para garantir o básico e isso fez com que a militância assumisse um papel importantíssimo na minha vida. Assédio passou a ser experiência cotidiana também, assim como o medo de sofrer violência, não voltar pra casa viva. Me jogar de cabeça na militância foi a saída que encontrei pra lutar por um mundo onde mulheres e LGBTs possam existir em segurança, aí fui atrás de formação feminista, transformando o meu olhar e meu discurso, levando essa formação pras palestras que tenho dado em escolas, faculdades, Câmaras Municipais, SESCs, trazendo luz ao debate de gênero, às violências cometidas contra grupos oprimidos, violências que são naturalizadas muitas vezes.

Hoje faço parte da Associação Mulheres Guerreiras, que reúne profissionais do sexo de Campinas, do Grupo Identidade (LGBT) e do Coletivo TransTornar, primeiro coletivo trans de uma universidade brasileira, a Unicamp, onde faço doutorado em teoria literária. Para além disso, sou autora do livro recém lançado “E se eu fosse puta” (hoo editora), onde escrevo sobre as minhas experiências como prostituta de uma perspectiva feminista ao mesmo tempo que literária, tentando apresentar em detalhe as violências que enfrenta a travesti que exerce a prostituição.

2. Quais você considera que são os principais problemas a serem enfrentados pelas mulheres hoje?

As violências que se cometem contra nós no espaço público, sejam elas físicas ou simbólicas, reforçam a ideia de que nosso lugar é trancadas em casa, a serviço do homem cis branco heterossexual cristão. No entanto, o ambiente doméstico tampouco é seguro pra nós, como o prova o fato de que a maioria das violências de cunho sexual cometidas contra mulheres ocorre no seio doméstico e familiar (não à toa a existência da Lei Maria da Penha). Isso gera uma sociedade que o tempo inteiro diz que não há lugar pra nós, que o tempo todo nos ataca e nos deslegitima, que nos cria para ser vulneráveis, o que é conveniente para nos manterem sob controle. É essencial, nesse sentido, garantir que essas violências não tenham lugar, seja via punição, seja via transformação radical da maneira como criamos nossas crianças, pois só uma educação livre de sexismo irá garantir um lugar no mundo em pé de igualdade para homens e mulheres.

3. Qual tema feminista você tentará ter como foco caso seja eleita?

Reverter a decisão da Câmara de eliminar a discussão sobre gênero dos currículos escolares é um dos maiores focos, assim como garantir a aplicabilidade da Lei Maria da Penha no município não só no que se refere a punições mas especialmente no que toca à capacitação das esferas envolvidas na execução da lei (judiciário, delegacias, hospitais, escolas, etc).

4. Quais as dificuldades em ser uma candidata feminista no sistema político brasileiro?

Você diz que sua candidatura vai se pautar pelo direito à cidade de mulheres e LGBTs, aí a pessoa te pergunta “só isso? e pautas para sociedade como um todo?” Feminismo é um projeto de sociedade, transformação radical da maneira como existimos, mas os detentores do poder não estão dispostos a ver essas transformações ganhando corpo, o que mudaria, p.ex., a porcentagem de mulheres que ocupam cadeiras no legislativo e executivo (o que significa que fazemos parte da tomada de decisões dos rumos da nossa sociedade).