A autoestima da mulher negra

Texto de Fernanda Pedroza para as Blogueiras Feministas.

Fernanda, carioca, moreninha, cabelo ruim, companheira e amorosa. Essa foi a definição simplificada do que consigo me lembrar de como me considerava quando criança, estudando em uma escola quase que exclusiva de pessoas brancas em Curitiba.

Poderia falar de mil maneiras que essa definição afetou minha autoestima. O fato de ser “moreninha de cabelo ruim” não me afetou tanto quanto em algumas crianças que se esfregam com a bucha para ficarem brancas, mas me afetou de outras maneiras… Quando adolescente não me sentia bonita ou atraente com meu cabelo natural, o que me levava a fazer escova para me sentir mais autoconfiante. E quando me elogiavam pela beleza eu não acreditava ou questionava, não por modéstia, mas porque eu não me sentia assim.

As revistas de beleza, de moda ou até catálogo de produtos tinham várias mulheres, mas não tinha mulher negra. Como eu podia me sentir bonita ou gostar de mim se não me via representada em lugar nenhum? Acho que se eu apenas não visse não seria tão ruim… Acontece que, não só eu não via mulheres negras em lugares de destaque, como quando aparecia era sempre no papel de empregada ou sendo humilhada e rebaixada. Durante a infância e adolescência absorvemos muitas coisas que vemos no mundo. Que tipo de coisa você acha que eu pude absorver sobre “ser mulher negra”?

Comecei a ficar mais retraída e cada vez mais introvertida, totalmente diferente do que era quando criança. Algumas coisas que aconteciam comigo, percebia que não acontecia com minhas amigas (brancas). Não entendia. Depois de muito tempo entendi que racismo acontecia comigo. Sabia que existia racismo, mas achava que não podia acontecer comigo, pois o que eu sabia – na época – era que eu não era tão preta assim, mas também não era branca. Estava no limbo e ser “parda” era o que me restava.

Foi com 22 anos e 11 meses que eu descobri/aprendi que eu era negra. Que tudo bem ser negra com a minha cor, com o meu cabelo. Além da minha identidade, muita coisa na minha vida fez sentido. Pude com toda certeza me reencontrar, me empoderar e finalmente me amar pelo o que eu realmente sou. A partir dali, onde finalmente encontrei a peça que faltava, me senti completa. O processo da identificação enquanto negra não é simples, nem fácil. Mas no meu caso, foi libertador.

Fiz faculdade de psicologia, me formei achando que ia para um lado, mas o meu caminho me levou para outro. Hoje me encontro realizada trabalhando principalmente com mulheres negras. Algumas como eu, que não sabiam que racismo podia acontecer com elas, e várias outras que querem fazer terapia comigo, pois querem uma psicóloga negra, como elas.

O trabalho de psicoterapia com essas mulheres além das questões individuais de cada uma é um trabalho social. Social porque a partir do momento que consigo ajudar uma mulher negra a se empoderar, que ela sai do consultório se aceitando e se amando pelo o que é, certamente ela irá influenciar várias outras mulheres e meninas. Acredito que não tem nada mais gratificante que isso. É lindo.

Trabalhar com autoestima para essa população é, primeiro, enxergar de frente o racismo e o machismo – e isso dói muito. Para só depois poder pensar na busca da autoestima. Nessa busca enxergamos as opressões da sociedade. E também entendemos e perdoamos nossas vulnerabilidades. Entendemos que vulnerabilidade é diferente de pena, e compaixão diferente de dó. Nos vemos como seres completos e imperfeitos.

Finalmente reconhecemos, amamos e gritamos para o mundo o quanto somos belas, inteligentes e que merecemos o melhor. Por essas duas opressões (racismo e machismo) encontrar ou reencontrar a autoestima pode ser um caminho muito longo, mas quando resgatada, a autoestima tem o poder de transformar! E aí, ninguém segura mais.

Autora

Fernanda Pedroza é psicoterapeuta cognitivo comportamental e mora em Curitiba/PR. É idealizadora do projeto: Me amando de verdade. No site, você pode baixar gratuitamente o e-book “Como começar a se amar de verdade”.