É arriscado tentar abordar um assunto tão profundo

Texto de Ariana Aguiar para as Blogueiras Feministas.

Um ato falho, que me fez PARAR, SENTIR E PENSAR…

Tomar decisões não é um assunto simples.. Foi a grande notícia que me colocou nesse paredão entre um caminho e o outro, noticia para mim mesma, para a minha família, para ele, noticia e a nossa decisão.

Acho que as boas decisões são aquelas baseadas em um contexto, são aquelas que involucram a todos os involucrados, neste caso, se trata de uma decisão que se bem é única de direito único, é compartida e por isso é que, deve ser negociada entre dois ou quem mais forem. Sempre acreditei no diálogo, na compreensão, na compaixão e no amor em cada relação, em cada decisão, em cada paredão e caminho a seguir.

Entendi hoje, que toda atitude, está absolutamente imersa em um fundo inseparável, que algumas vezes não é considerado pelo outro e pela sociedade. Hoje, para não ser penalizada pela minha sociedade, que é só um pedacinho ínfimo do meu fundo, tenho que sair do meu País, para por em açao a minha decisão, que vou esclarecer agora.

O ato falho foi, “… é arriscado tentar ABORDAR um assunto tão profundo…” por “… é arriscado tentar ABORTAR um assunto tão profundo…” em um artigo que começaria a ler sobre a atenção plena e prevenções de recaídas para a minha tese de Licenciatura.

E que assunto essa grande noticia, “estou grávida”, e essa grande decisão “vou abortar”.

As leis entorpecem o caminho, complicam o processo, negligenciam assistências medicas, penalizando ao invés de despenalizar uma vida que ainda não chegou, que ainda não tem um hoje e um contexto, como esta vida que está aqui, tomando decisões que o viver nesta era nos depara. O fim será o mesmo, a interrupção de uma gravidez que apenas inicia, totalmente desconsiderada, a causa de um acidente, que será feito de uma forma mais ou menos complicada, mais ou menos segura, mais ou menos livre de julgamentos, mal tratos, negligencias que só terminam por reinar de mais culpas, tristezas e sofrimentos. É preciso respeitar que algumas vezes a mulher simplesmente sabe e sente qual é o melhor caminho a seguir, para si e inclusive para esse quase outro agora, forçar uma mulher a seguir este caminho que não deseja me parece irracional.

Foto de Magdalena Roeseler no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Entendo, é um caminho polêmico, por isso a diferença mundial no julgamento dele. Porém, é engraçado ver, como as fronteiras mudam toda percepção e vivência, em países é obrigatório, em outros proibido e penalizado, em outros legal e assistido.

Agradeço que no meu caso, esta questão de fronteiras, leis, assistências ou não, não consigam bloquear a minha escolha de vida e terminem por não servir de muito, apesar de entorpecer e provocar desvios no caminho.

Agradeço, uma vez que ainda existem casos trágicos, histórias de outras mulheres que não são respeitadas em suas decisões e que não podem sair em busca de uma assistência médica legal, de apoio e contenção como se é preciso, seja qual for a causa da sua decisão.

Uma vez mais, obrigada a este País, Uruguai. Obrigada a mim mesma e a todos os involucrados pelo apoio incondicional em qualquer decisão.

Para muitos, não é um processo fácil que passe assim a ligeira, mas passa, para outros tantos talvez sim, os métodos com certeza influem, modificam.. fazem dele mais ou menos agressivo, mais ou menos visível, mais ou menos demorado.

Pessoalmente, sempre achei maravilhosa essa nossa capacidade de gestar uma vida, essa extensão transformada de dois em um, que faz a existência prospera em outras gerações e outros tempos… Outra pessoa que esta se transformando literalmente dentro de você. Porém, toda capacidade maravilhosa implicará sempre uma grande responsabilidade, então devemos ser responsáveis com a vida.

Como mulher, tive e tenho o sonho, a vontade, expectativas de ser mãe, alias, particularmente, por diferentes dificuldades medicas desde muito jovem, com ovários policísticos, logo hpv, logo um tumor benigno involucionado quase que naturalmente.. medos e crenças de infertilidade, engravidar, ter um filho, uma família própria, sempre foi para mim, um assunto polemico, desejado, cheio de opostos, inconsistente, com duvidas varias e em certo momento até inexistente para a minha existência.

E chego a conclusão de que eu mesma, apesar deste sonho, não quero gestar uma vida. Uma flor, apesar de ser flor, que venha desde o rancor, a dor, as separações, desamores, dificuldades, ausências e carências, ironicamente, a decisão compartida me leva a este caminho doloroso e de certo ponto de vista até agressivo, por amor, responsabilidade e cuidado. Amor ao aqui e agora, amor ao futuro, amor a mim, amor a nossa historia, a minha, a sua.

Alguns acreditam na existência de uma conexão de energia e luz, de partículas do universo conectadas formando uma rede geométrica, quântica, que traspassa o tempo e a razão para unir e reunir almas e espíritos. Outros acreditarão em Deus ou vários Deuses, que tem todos os caminhos escritos com um propósito final sempre maior, ou que te tornam pecador e indigno por determinadas ações, existirão tantas crenças como pessoas, pois cada uma faz a sua interpretação única de uma crença coletiva e por tanto seus julgamentos são seus.

Seja qual for a realidade espiritual, o que desejo, o que busco, o que quero, o que faço no meu dia a dia, é jamais machucar, agredir ou danar, ao contrario e por isso, desde o fundo do meu coração, desde a minha alma mais elevada, espero que saiba me perdoar. Desejava e assim foi, que o processo fosse acompanhado de muita força, luz, leveza, simplicidade, sem dor, nem rancor, que o amor prevaleça a pesar da rejeição do momento e das circunstancias. Desejo, que em algum momento esta possibilidade retorne, gerado e continuado desde o amor, a gratidão, alegria e a união.

Com o final desta história, vem o final de uma relação, e uma vez mais, repenso aquela frase de tantos anos atras.

As pessoas passam em nossas vidas, e apesar do importante que possam ser ou ter sido, nem todas elas seguirão em nosso caminho, algumas vezes, elas se vão, e passam deixando grandes aprendizados, devemos aceitar, respeitar e agradecer esse ciclo natural da nossa passagem na vida, ela também passa.

Você foi, como digo a muitas pessoas, uma das poucas oportunidades que tive de amar a um homem, projetar e viver uma relação de amor incondicional. Ela foi tão intensa e gostosa como cruel e dolorosa para ambos, impulsados por alguns desejos em comum, nos descobrimos, cuidamos, acompanhamos, crescemos… Mas também nos equivocamos, ferimos, magoamos, desprezamos, não valorizamos, não respeitamos, a si mesmos, e um ao outro, estivemos um ao lado do outro em tempos diversos. Costumo dizer quando falo de você, que não nos conhecemos no momento certo para criarmos uma historia e uma família. Agora, “o destino” uma vez mais, parece pretender nos unir em tempos distintos, em situações adversas, coube a nós dizer não, caberá a nós dizer até aqui fomos juntos. Boa Sorte, vou por ali…

O tempo marcou cuidadosamente cada etapa deste fim com os dias 13, 13 de dezembro para a fecundação, 13 de janeiro a descoberta e 13 de fevereiro o aborto, aos 13 anos de historia desde que nos conhecemos, o tempo foi marcado por “coincidência” com o número que representa entre outras coisas, a morte, a transformação, o renascer… Considerados bons dias para fazer grandes ou pequenas mudanças, para aproveitar o poder da energia que reina neste dia de transformação, e nós escolhemos o sentido dela, a interrupção e o fim para este espírito que vá em amor, para que vá a nossa relação e para que vá, cada aspecto que queiramos de nós mesmos.

Eu escolho sobre você, amarmos em silêncio e distância em um tempo passado, sem pesar no dia a dia, escolho aquilo que possa ser reciproco em vários sentidos, uma vida prospera a mim e a você. Me emancipo da sua ajuda e de homens que me queiram e me tenham só até ai, até a cama, intensamente profunda e espiritual, o que for meramente superficial e frio já não me faz sentido. Sei que o seu carinho por mim é mais que superficial, porém, é até aí, e é até aí que chega esta história.

Gratidão, até logo e adeus.

Autora

Sou Ariana, tenho 32 anos e como costumo dizer minha nacionalidade é brasiguaya, em dezembro retornei ao Brasil depois de 14 anos morando no Uruguay, onde me formei em Psicologia, o amor da minha vida.