Leis da Atração.

Texto de Andrew O’Hagan. Publicado originalmente com o título: Laws of Attraction, no site T Magazine em 21/08/2013. Tradução, adaptação e notas de Chris Ritchie para as Blogueiras Feministas.

Encontrei o ator James Gandolfini numa festa duas semanas antes de sua morte. Foi num casamento em Hollywood e, lá pra meia noite, lá estava ele servindo tequila para um grupo de homens que – tendo enxugado mais de uma garrafa – gargalharam ao saber que a maior preocupação do nosso tempo é saber se alguém é bonito ou não. O próprio Gandolfini, então com 51 anos, grisalho, acima do peso, com a cara vermelha e a alma complexa, na opinião de muitos homens e mulheres, nunca estivera tão bem. (“Eu também estaria”, disse uma mulher à minha mesa.) Em nosso mundo parcialmente justo, os homens, conforme envelhecem, adquirem um ar distinto, enquanto as mulheres muitas vezes sentem que vão se tornando invisíveis. O ator fez um brinde às estrelas e bebeu como se a única que coisa que evidenciasse sua idade fosse sua experiência. Ele estava perto do fim, que Deus o abençoe, e não partiu desejando ser outra pessoa.

Apenas para homens estúpidos a inteligência de uma mulher é ponto contra. Mas, talvez após cem gerações de homens estúpidos, eles tenham obtido algum sucesso em convencer as mulheres de que elas apenas prestam enquanto sua pele for lisa e macia. Nunca houve um período na história tão obcecado pela juventude quanto o nosso: falamos hoje de um rosto sem marcas como falávamos antes de uma mente brilhante. De fato, certo ouro fitzgeraldiano* reluz na rasa caverna da juventude, de onde nossa cultura popular o extrai até a morte, e, no entanto, da mesma forma que o melhor ouro tem uma marca que atesta sua qualidade, a grande beleza se distingue pelo conhecimento, pela destreza, pelo espírito e pela longevidade. Dia desses, minha amiga Carol Banker, 53 anos, me contou que quando entra num bar hoje sente-se um fantasma. Os homens, que antes estufavam o peito ao vê-la, hoje afundam em suas cadeiras. A Carol é uma pessoa linda, uma diretora genial que se sente um zero à esquerda nessas horas. Não importa o quanto eu lhe diga que vivemos em um reino de asnos, ela sofre. “De repente, você percebe”, ela diz, “que a sua aparência está totalmente pregada ao seu valor, e isso não acontece com os homens”.

Acho que precisamos aprender mais com os franceses. Nenhum clichê contém mais verdade do que aquele sobre eles terem estilo. E uma das maneiras em que o estilo deles se manifesta é por saberem – instintivamente, presumo – como honrar o que acontece às mulheres conforme elas envelhecem. A verdadeira beleza não foi feita para diminuir, mas para amadurecer. Ser sensual não é um lance de sorte, mas sim uma festança itinerante. A sensualidade se manifesta de formas diferentes com o passar do tempo e em condições diversas. Quando um homem está interessado numa mulher, ele é tomado pela mutabilidade de sua beleza, suas complicações, seus mistérios, então, ele pode ver como o vagar do tempo oxigena a elegância destes conteúdos. Os franceses sabem disso, prova é que Catherine Deneuve continua a ser um ícone de beleza aos 75 anos de idade. E não estou falando da fraca virtude compensatória de ela estar bem conservada. Estou falando sobre estar ainda melhor. Quando uma mulher diz à outra que ela está bem conservada, está a confinando, com um falso elogio, a um nicho cruel de luta e sobrevivência, como se a mulher bem conservada tivesse todas as virtudes de um salmão defumado. As mulheres lindas não lutam contra o tempo, saltando desesperadamente contra as corredeiras dos anos, elas investem no momento. E o que possuem de mais importante é sua imaginação. Vi Deneuve recentemente no Festival de Cinema de Cannes e ela parecia ser uma pessoa que tinha acabado de descobrir o quanto era especial.

Extra, extra, mulheres do mundo! Não há data de validade para um perfil interessante ou a profundidade de um olhar. As francesas respeitam os adornos naturais do tempo e são, talvez por isso, menos vitimadas pelo brilho fatal da falsa juventude. A maioria delas tem autoconfiança de sobra para habitar sua própria alma, a qualquer custo. Elas não querem ser outra pessoa, ou ter outros seios ou lábios ou pernas ou outra personalidade. Esse tipo de confiança compõe uma auto expressão saudável e apaixonada. O charme não tem idade para acabar. Conheço mulheres de 70, 80 que dão lições sobre como se vestir e se transportar com graça, força e beleza. Na primavera passada, entrevistei Miuccia Prada. Ela está empenhada em encontrar novas definições de beleza, com um sentido mais forte, que considere a vida da mulher como um todo. Ela é uma filósofa da beleza contemporânea genuinamente enlevada (e desafiada) pela noção de que em breve as mulheres irão se libertar dos estereótipos da beleza jovem e o mundo aplaudirá também as mulheres de 50, 60 anos ou mais divulgando essa verdade de que a beleza somada ao tempo resulta num fascínio de grandeza maior.

A verdadeira beleza supera sua própria fragilidade. Não me levem a mal. Há algo realmente fantástico na beleza da juventude – o espetáculo de ver uma pessoa chegar naturalmente ao pico de sua exuberância. E devemos celebrar esse feliz acidente pelo que ele é: a natureza e o tempo trabalhando juntos em prol de um indivíduo. A beleza da juventude, no entanto, não requer nada de quem a possui. Somente mais tarde, a pessoa se apropria desse poder de atratividade cândida e incipiente, dando-lhe um sentido mais profundo, apenas conquistado com confiança, instinto, autoconhecimento e estilo. Adoramos os jovens por seu frescor, mas os adoramos mais quando este frescor é acompanhado pela promessa de que uma grande pessoa emergirá dele. Talvez a ficha esteja finalmente caindo. Um número cada vez maior de mulheres parece ter este tipo de inteligência inerente à sua beleza. A atriz francesa Léa Seydoux, 33 anos, nos convence com facilidade de que sua face radiante é iluminada por sua inteligência. Nascida em uma família de cineastas e vanguardistas, ela ganhou notoriedade internacional com seu papel em Meia noite em Paris, de Woody Allen. Depois, estrelou Azul é a cor mais quente, filme vencedor da Palma de Ouro, 2013. Bérénice Bejo, vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes, 2013, encantou o mundo com seu charme nostálgico em O artista, no papel da jovem que sonha em atuar e conta com a ajuda do ator que mais admira. Porém, com o advento do cinema falado, enquanto ela ascende, ele decai. Com livros intitulados Sou uma linda mulher francesa e nunca engordo ou grito com meus filhos e sei tudo sobre o amor, você já deve ter ouvido falar no charme das mulheres francesas e que elas estão com tudo. Não estão, mas elas têm um quê. Esse quê não é exclusividade delas. Bérénice Bejo, por exemplo, é franco-argentina e amplia sua beleza com um tipo de radiância e firmeza que não se compra em creme. Talvez ela simplesmente saiba quem é. Talvez autoconhecimento e confiança sejam os elementos da beleza longeva. Outra atriz, Marine Vacth, estrela de Young & Beautiful, de François Ozon, tem 27 anos e é tão francesa quanto uma garrafa de Perrier-Jouët, mas sua beleza e talento vêm com a promessa da grande pessoa.

Mesmo no Brasil, onde o culto à mulher jovem chega às raias da obsessão, o sucesso ininterrupto de atrizes como Fernanda Montenegro, 90, Sônia Braga, 69, Andréa Beltrão, 56, Fernanda Torres, 54 e Cláudia Abreu, 49 aponta para a verdade infalível da promessa.

Essa promessa é uma característica da beleza das mulheres de quem estou falando aqui, é uma determinação natural, histórica talvez, que não permite que sua beleza entre em conflito com seu talento. Entre os privilégios que nós homens não tivemos que conquistar – aquele que deveríamos agradecer diariamente e compartilhar espontaneamente – está o de se tornar senhor de si com o passar dos anos. Para as mulheres este ainda é um privilégio a ser conquistado. Quantas mulheres se perderam com sua juventude, não se reconhecendo mais quando os anos mudaram seu rosto e seu corpo? Hoje ao vermos uma mulher bonita e senhora de si entendemos melhor como ela ficará cada dia mais bonita até o fim de sua vida. Ela mudará, é claro. Porém, como uma bela frase proustiana, ela terá juntado o tempo e colhido memórias, terá vivido um milhão de sensações no corpo e alegrias na mente e terá chegado enfim à realização perfeita de quem é no exato instante em que vive. A garota que ela foi, num vestidinho de verão, sempre soube que assim seria.

Autores


Andrew O’Hagan é escritor e colaborador da London Review e da revista Granta, que o listou entre um dos 20 melhores jovens romancistas britânicos. Seu livro de estreia Our Fathers (1999) foi finalista do Booker Prize e do Prêmio Whitbread.


Chris Ritchie é escritora. Poeta de O tantra de tudo (2015), Na Terra do Fogo (2016), Olé nas Fúrias (2017); antologias Úmidas Paisagens, Penalux (2018) e A poesia queima, Patuá (2018); autora do infantil Ainda não, ainda nunca, Quase Oito (2018) e do romance Deus adora besouros, Amazon KDP (2019). Finalista do Prêmio Sesc em 2014 (contos) e 2015 (romance).