Marcha das Vadias de Campinas

Amanhã fará uma semana que a Marcha das Vadias de Campinas aconteceu. Era o dia 24 de setembro de 2011, um sábado. Com notório entusiasmo e ampla repercussão (Somos Todas Vadias), a marcha se espalhou pela 13 de Maio, a rua mais movimentada do comércio da cidade.

Saímos com corpos pintados, entoando canções, levantando placas, relembrando a tod@s presentes sobre os números alarmantes da violência contra a mulher na região. Relembrando que devemos parar de ensinar as mulheres a não serem estupradas, mas ensinar os homens a não estuprar.

A gente pedia respeito.

Antes de sairmos em caminhada, houve uma concentração em frente à catedral, onde aproveitamos para discutir sobre o tema, confeccionar cartazes e apresentar as performances, que foram bastante sensíveis e bem impactantes. Em uma delas, formamos uma roda de mulheres e, de mãos dadas, fomos narrando em coro alguns casos de mulheres violentadas, espancadas e, até mesmo, mortas por homens, geralmente os próprios companheiros. E afirmávamos: “se escolher com quem queremos namorar é ser vadia, então somos todas vadias”. Em blocos, as mulheres que participavam da performance iam tirando a blusa depois dos casos narrados. Meu braço estava todo arrepiado e cheguei a derrubar lágrimas.

Performance do coletivo Marcha das Vadias. Imagem de Cris Beskow

Eu me lembro que, na época em que nos organizamos para fazer a marcha, contei para um grupo de conhecidos sobre o porquê do nome “vadias”. Uma colega médica comentou que, quando trabalhava no hospital de mulheres da Unicamp, a grande maioria dos casos de estupro acontecia quando meninas e mulheres estavam indo ou voltando da escola e indo ou voltando do trabalho. Portanto, com roupas de ir para a escola ou de ir para o trabalho. Ela disse que era enganoso pensar que a maior parte das mulheres estupradas seriam aquelas que usam roupas curtas e decotadas, pois os estupradores até se sentem mais intimidados para tentar estuprá-las, por temerem “não dar conta”.

Eu, durante a performance "Nebulosa Silenciosa", com "roupa do dia-a-dia". Imagem de Edward Zulawski

Fiquei com aquilo na cabeça e fui à marcha com a roupa que saio de casa, assim como outras mulheres que lá estavam. Inclusive, fiz a performance com aquela roupa, “roupa do dia-a-dia” por assim dizer. Afinal, se temos opinião própria sobre as coisas, se lutamos por igualdade de oportunidades, se nos recusamos a namorar quem não queremos, se não aceitamos fazer café para o marido, se não desejamos ser mães… seremos chamadas de vadias de qualquer jeito, não importa nossa roupa. Então, somos TODAS vadias.

Ainda durante a concentração, também fiquei um tempo distribuindo panfletos. Os panfletos explicavam o porquê do nome “vadias” e os números da situação assombrosa de violência sexual e doméstica sofrida pelas mulheres em Campinas. A maioria dos que ali passavam aceitava o panfleto que eu oferecia, um e outro não pegava, poucos faziam cara feia, porém havia um certo interesse pelo que estava acontecendo ali, no coração da cidade. Lembro-me de alguns casos, como a de um moço quando disse que não precisaria nem ler o panfleto, pois discordava da nossa marcha. Outro, um senhor no alto de seus 80 anos, veio me perguntar se toda aquela mulherada era vadia mesmo. Umas meninas cochichando entre si: “que absurdo!”.

Uma moça passou com seu marido e perguntou o que era aquilo tudo, quando respondi: “a marcha é pelo fim da violência contra mulher”, ao que ela retorquiu sorrindo: “Ah, então, aí, eu concordo!”. As pessoas até concordam sobre este ponto, fim da violência, só não concordam que mulheres possam usar roupa curta e nem transar com quem bem entendem. Ah, lembrei, as pessoas também discordam que o aborto deva ser legalizado. E, além disso, elas discordam… zzzzz…

Como não podia deixar de ser, claro que uns poucos homens, vendo muitas meninas sem camiseta, tentaram passar a mão nelas, aproveitar-se de alguma maneira, dando risadinhas e lançando olhares de “hoje me dei bem”. Homens que não faziam a mínima ideia do que era a marcha, que, talvez, já tivessem abusado sexualmente de outras mulheres, até mesmo batido em alguma companheira; homens que nem faziam ideia que mulher também é gente. Sim, porque avisem aos desavisados que também somos gente!

(Ah, e já que estamos, praticamente, na época quente do ano, já vou avisando que também sentimos calor! Meninas, preparem o guarda-roupa primavera-verão!)

O fato é que, discordando ou não gostando, a marcha aconteceu e floriu. Querendo ou não, o movimento feminista está aí, minha gente. Para vocês, mulheres e homens que costumam ditar regras sobre como as outras mulheres – porque são sempre “as outras” – devem viver a própria vida, com quem elas devem namorar, como devem vestir-se, com quem devem fazer sexo, sobre quando e como devem ser mães, deixa eu contar um segredinho: as mulheres vão continuar fazendo o que querem. Mesmo que vocês percam a fé na Humanidade, elas vão continuar. I’m sooo sorry!

Façam o que quiserem da vida de vocês, mas parem de se achar no direito de proibir o nosso direito de escolha! Como já disse um sábio senhor morador da periferia de Londres, “Have some respect!

Depois da marcha, fotos e mais fotos em variados ângulos, vídeos, mensagens de apoio, reportagens. Um orgulho muito grande de ter feito valer a pena. Éramos mulheres, homens e crianças. Éramos uma só e foi lindo.

Com esta marcha e com todas as marchas das vadias realizadas no Brasil, talvez algumas pessoas tenham descoberto que espancar ou estuprar mulher é crime.

Esperamos, de verdade, que esta marcha tenha trazido um pouco de conscientização sobre o tema e que os índices de violência contra a mulher diminuam na região. Também esperamos que mais mulheres se sintam encorajadas e protegidas para denunciar casos de agressão e estupro. Afinal, MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS!

Visite o site da Marcha das Vadias de Campinas

*Imagem destacada de Cris Beskow

Autor: Karen Polaz

Pense em uma pessoa distraída.

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