Laqueadura tubária: um bom método contraceptivo?

Recentemente, vi uma matéria do Correio Braziliense entitulada: Mulheres ainda precisam de autorização do cônjuge para cirurgia de ligadura. Decidi investigar se era mesmo verdade, porque não tenho acesso a matéria completa do jornal.

Descobri que a Lei 9.263 de janeiro de 1996, que regula o § 7º do art. 226 da Constituição Federal, que trata do planejamento familiar, estabelece várias regras para uma pessoa se tornar apta a realizar alguns procedimentos de esterilização cirúrgica como método de contracepção. Porém, a autorização do cônjuge, pelo que entendi, só é necessária quando há sociedade conjugal. Acredito que essas regras também valem para casais homossexuais que tenham união estável. As regras para realizar uma laqueadura ou vasectomia são (grifos meus):

I – em homens e mulheres com capacidade civil plena e maiores de vinte e cinco anos de idade ou, pelo menos, com dois filhos vivos, desde que observado o prazo mínimo de sessenta dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico, período no qual será propiciado à pessoa interessada acesso a serviço de regulação da fecundidade, incluindo aconselhamento por equipe multidisciplinar, visando desencorajar a esterilização precoce;

II – risco à vida ou à saúde da mulher ou do futuro concepto, testemunhado em relatório escrito e assinado por dois médicos.

§ 1º É condição para que se realize a esterilização o registro de expressa manifestação da vontade em documento escrito e firmado, após a informação a respeito dos riscos da cirurgia, possíveis efeitos colaterais, dificuldades de sua reversão e opções de contracepção reversíveis existentes.

§ 2º É vedada a esterilização cirúrgica em mulher durante os períodos de parto ou aborto, exceto nos casos de comprovada necessidade, por cesarianas sucessivas anteriores.

§ 3º Não será considerada a manifestação de vontade, na forma do § 1º, expressa durante ocorrência de alterações na capacidade de discernimento por influência de álcool, drogas, estados emocionais alterados ou incapacidade mental temporária ou permanente.

§ 4º A esterilização cirúrgica como método contraceptivo somente será executada através da laqueadura tubária, vasectomia ou de outro método cientificamente aceito, sendo vedada através da histerectomia e ooforectomia.

§ 5º Na vigência de sociedade conjugal, a esterilização depende do consentimento expresso de ambos os cônjuges.

§ 6º A esterilização cirúrgica em pessoas absolutamente incapazes somente poderá ocorrer mediante autorização judicial, regulamentada na forma da Lei.

Observando a lei, é possível imaginar que uma mulher de 26 anos, solteira e sem filhos possa realizar uma laqueadura tubária. Da mesma maneira, uma mulher de 19 anos casada que tem dois filhos e a autorização do marido também estaria apta. Porém, há inúmeros fatores que influenciam a questão. Há a recusa dos médicos em realizar procedimentos esterilizadores em pessoas sem filhos ou muito jovens. E os casos de arrependimento em esterilizações realizadas precocemente, ou de forma compulsória.

Há o Projeto de Lei 313/2007, que pretende alterar a Lei 9.262, acabando com a obrigatoriedade da autorização do cônjuge e modificando a idade mínima para 23 anos, desde que a pessoa já tenha dois filhos. Mas me pergunto: a laqueadura é uma boa solução contraceptiva?

O que é laqueadura?

Laqueadura é um processo de esterilização definitiva, que consiste no fechamento das tubas uterinas para impedir a descida do óvulo e a subida do espermatozoide. As trompas são cortadas e suas extremidades amarradas de tal forma que a passagem dos espermatozoides fica bloqueada na sua porção mais distal e a do óvulo bloqueada na porção mais proximal.

A chance de reverter o procedimento de forma satisfatória é pequena. A laqueadura é um procedimento cirúrgico, que recentemente ganhou novas técnicas que dispensam cortes, anestesia e internação. Só no Distrito Federal, há uma fila de espera de 1,2 mil mulheres.

A esterilização feminina provocou polêmica desde o seu surgimento por envolver aspectos políticos, éticos, religiosos, demográficos e sociais. A sua prevalência foi apontada como principal causador da queda da taxa de crescimento populacional entre as décadas de 60 e 90. Mesmo com as polêmicas, tem sido considerado o método de contracepção mais utilizado no mundo. Segundo levantamento feito pelas Nações Unidas, 2, 21% de todos os casais adotaram a esterilização feminina como opção contraceptiva. O segundo método mais utilizado é o DIU, 14%. Seguido pela pílula, utilizada por 7% das mulheres casadas ou em união consensual.

Inauguração do Hospital da Mulher no Rio de Janeiro. Foto de Vitor Silva/Jornal do Brasil.

Números da laqueadura no Brasil

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil tem um dos maiores índices de laqueaduras do mundo, com 40% das mulheres em idade reprodutiva esterilizadas, ao lado da Índia e China. Em 2008, foram realizadas 61.847 laqueaduras no Sistema Único de Saúde (SUS). Lembrando que tanto a laqueadura, quanto a vasectomia, são procedimentos cobertos por planos de saúde.

Até a década de 60, as esterilizações sofreram muitas críticas, e sua utilização permaneceu limitada. Entretanto, a partir de 1970, foi ganhando popularidade, e seu emprego se espalhou pela Europa, Ásia, América Latina e Estados Unidos. Nos Estados Unidos, entre as mulheres casadas em idade reprodutiva, 14% dos parceiros se submeteram à vasectomia e 24% delas estão esterilizadas; na Europa, o percentual de mulheres laqueadas nessa mesma condição é bem menor: 6% na França, 7% na Inglaterra e 4% na Itália.

O Brasil tem um dos mais altos índices de esterilização feminina do mundo, pois cerca de 40% das mulheres em união estável, de 15 a 49 anos, estão esterilizadas, enquanto apenas 2,6% dos homens se submeteram à vasectomia. Referência: Fatores associados ao futuro reprodutivo de mulheres desejosas de gestação após ligadura tubária (.pdf).

Dados demográficos nacionais mostram que a prevalência da laqueadura em 1996 era de 21,1%, na faixa etária de 25 a 29 anos, e de 37,6%, em mulheres entre 30 e 34 anos de idade. Os motivos principais para a realização da laqueadura costumam ser o desejo de não ter mais filhos, falta de condições de criá-los ou já ter o número ideal de filhos.

Os fatores que estão associados à utilização da esterilização em nosso país são múltiplos: falta de acesso e/ou informação acerca dos métodos contraceptivos reversíveis, precariedade dos serviços de planejamento familiar, percepção da esterilização como forma de ascensão social, uma cultura baseada na desresponsabilização masculina em relação à contracepção, entre outros. Esses fatores, aliados a alta eficácia atribuída ao método, têm contribuído para a elevada prevalência de mulheres esterilizadas observada no Brasil.

Uma das consequências da esterilização pode ser o arrependimento, conceito subjetivo que, inclusive, pode mudar ao longo do tempo. Entende-se o arrependimento após a esterilização como uma mudança em relação à decisão de encerrar a vida reprodutiva. Referência: Arrependimento após a esterilização feminina no Brasil.

O arrependimento e a falta de informação

Os índices de arrependimento costumam ser maiores entre mulheres de 20 a 29 anos. Sendo a maior causa de arrependimento, a troca de parceiro e o desejo de futuras gestações. Entre as mulheres de qualquer faixa etária, que buscaram contracepção cirúrgica, cerca de 60% mudaram de opinião, optando por outras alternativas quando orientadas e bem informadas.

Estudos mostraram que a morte de filhos, novo casamento, idade da mulher no momento da esterilização, problemas conjugais, pouco conhecimento sobre os métodos reversíveis e escolha do método sob pressão do companheiro são fatores ligados ao arrependimento. Dos fatores citados, a associação mais importante é entre a idade da mulher no momento da esterilização e a probabilidade de arrependimento posterior. Outro fator que pode contribuir para o arrependimento é a falta de informações adequadas acerca da irreversibilidade do procedimento. Referência: Arrependimento após a esterilização feminina no Brasil.

Esses dados mostram que a informação é fundamental para que a decisão seja tomada com menos chances de arrependimentos. Ao mesmo tempo, não podemos pensar em retirar das mulheres o direito a esse procedimento. Há inúmeros problemas no atendimento público de saúde no Brasil que tem como consequência uma fila enorme de mulheres que querem realizar a laqueadura tubária, mas são impedidas pelos profissionais de saúde, como cita o médico Drauzio Varella:

Sabemos que, por falta de leitos públicos, entre a internação de uma mulher com um tumor uterino e outra para laqueadura o médico é forçado a escolher a primeira. É evidente que não me refiro a esses casos, mas àqueles em que nossa boa vontade é fator decisivo.

A mãe de sete filhos aos 30 anos, que preenche todos os requisitos para a laqueadura e que espera anos sem ser chamada, quando tem a felicidade de ver o médico, muitas vezes ouve que ainda é jovem, que irá se arrepender, que o marido poderá morrer e ela casar com um rapaz sem filhos. A regra é fazer o possível para demovê-la da intenção e não mover uma palha para agilizar a paquidérmica burocracia dos hospitais públicos.

O desconhecimento generalizado da existência de uma lei federal que trata do planejamento familiar não enobrece nossa profissão. Por lei, todas as brasileiras em idade reprodutiva têm o direito de receber anticoncepcionais de graça pelo SUS. Isso inclui meninas de 11 anos que menstruaram pela primeira vez. Referência: A meus colegas médicos.

São visíveis as dificuldades em conseguir realizar o procedimento. De um lado, a saúde reprodutiva das mulheres é desprezada pelo estado. De outro, as esterilizações feitas precocemente em mulheres sem acesso pleno a informação acabam resultando em arrependimento. Essa situação reforça a importância de fortalecer o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), que deveria incluir também perspectivas de saúde para mulheres lésbicas e trans*.

O acesso aos métodos contraceptivos reversíveis e a educação sexual são fundamentais para mudar a realidade de quem procura a esterilização como método contraceptivo, sem estar ciente de todas as consequências.

Foi de 10,5% a proporção de mulheres arrependidas após a esterilização e as mulheres jovens e de baixa escolaridade foram as que apresentaram maior chance de se arrepender.

É possível que as mulheres mais jovens não ponderem todos os elementos envolvidos na decisão pela esterilização. Essas mulheres ficam mais tempo do seu ciclo reprodutivo expostas a mudanças em sua vida que podem resultar em arrependimento. Para as mulheres em foco, a ampliação do acesso aos serviços de saúde, com profissionais experientes e capacitados, principalmente nos serviços de aconselhamento, poderia ser o caminho mais rápido e eficaz para a redução das taxas de arrependimento. Referência: Arrependimento após a esterilização feminina no Brasil.

Aspectos sociais e econômicos em questão

A política de planejamento familiar no Brasil é muito restrita e pouco divulgada, além de ter um caráter heteronormativo. É visível que a desinformação em relação a métodos contraceptivos ainda é grande.

Importante ressaltar que a esterilização da mulher de classe média é diferente da esterilização da mulher de baixa renda em termos de motivações, acesso e compreensão da situação e informação. Da mesma maneira, a esterilização da mulher que vive em centros urbanos, é diferente da mulher que vive na área rural. Além, das diferentes motivações que podem levar uma pessoa lésbica ou transexual a procurar um método contraceptivo de esterilização. É preciso compreender essas diferentes demandas em um plano de direitos reprodutivos e sexuais, e respeitar decisões individuais.

Em várias cidades do Brasil, a laqueadura é usada como moeda de troca eleitoral. Candidatos a cargos políticos prometem a mulheres pobres que tem muitos filhos esterilizá-las. Um estudo revelou que 77% das esterilizações feitas em mulheres nordestinas, no período entre 1987 e 1996, foram pagas por políticos e médicos. A ausência do Estado, que não possui uma política de planejamento familiar, associada à pobreza da população e a um esquema eleitoral que permite o clientelismo político são as principais razões para a permanência desse tipo de situação.

Muitas pessoas acreditam que a esterilização em massa das mulheres pobres, especialmente as negras, resolveria o problema da miséria social. Essa proposta foi retomada recentemente, com o aumento das usuárias de crack no país. Porém, é preciso respeitar direitos humanos, sociais e reprodutivos. Além, de não fomentar uma política de higienista. Toda pessoa deve ter o direito de decidir sobre os aspectos relacionados a sua reprodução. Para isso é preciso prover educação sexual e acesso a métodos contraceptivos para todas as pessoas.

A história obstétrica evidenciou uma alta média de gestações, favorecida pela escassa utilização pregressa de métodos contraceptivos reversíveis e início precoce da vida sexual, alta frequência de abortos e partos cesarianos, apesar da prevalência de partos vaginais. Percebe-se que a escolha por um método cirúrgico foi o desfecho de uma trajetória ginecológica e obstétrica diferenciada, marcada por questões de gênero no planejamento familiar, pouco esclarecimento e experiência dos meios de conduzir com autonomia sua vida sexual e reprodutiva.

As peculiaridades do grupo estudado ratificaram a necessidade de estratégias capazes de empoderar essas mulheres em suas decisões a respeito do planejamento familiar, respeitando o princípio da autonomia. Mas, para que essa mulher opte pelo método contraceptivo mais adequado, é necessário que os serviços de planejamento familiar disponibilizem outras opções, com garantia de continuidade do método selecionado. Referência: História reprodutiva de mulheres laqueadas (.pdf).

Direitos reprodutivos referem-se ao direito de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos, bem como o direito a ter acesso à informação e aos meios para a tomada desta decisão. Já os direitos sexuais dizem respeito ao direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, coerção ou violência. A esterilização compulsória é a violação total desses direitos.

Concluo que muitas mulheres parecem optar pela laqueadura por não terem acesso direto e seguro a outros métodos contraceptivos reversíveis. Essas mulheres em grande parte tem menor escolaridade e costumam fazer a escolha sem ter outras opções. Quanto mais métodos contraceptivos existirem melhor. Porém, é essencial um programa de planejamento familiar amplo e instrutivo, com ênfase em estratégias educativas. E, que alcance pessoas em período fértil de todas as idades. Para que haja uma escolha contraceptiva adequada e consciente. Além, de uma política de direitos reprodutivos que respeite a autonomia das pessoas. O lema deve ser sempre: “Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto legal para não morrer”.

Para saber mais:

[+] Esterilização feminina, AIDS e cultura médica: os casos de São Paulo e Porto Alegre.

[+] Esterelização feminina no nordeste brasileiro: uma decisão voluntária? (.pdf)

[+] O planejamento familiar no Brasil no contexto das políticas públicas de saúde: determinantes históricos.

[+] O movimento de saúde e direitos reprodutivos no Brasil: revisitando percursos.

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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Sobre: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

21 Comentários para: “Laqueadura tubária: um bom método contraceptivo?

  1. Muito bom o post.
    Conheço muitos casos de mulheres que conseguiram laqueaduras em épocas de eleições. Também conheço muitos casos de mulheres que precisam/querem fazer laqueadura e necessitam juntar dinheiro para pagar o médico que vai realizar essa cirurgia num hospital do sus. Também já vi num posto de saúde da família uma garota indo pegar anticoncepcional e a agente de saúde disse que estava em falta. É lamentável viver num país que a saúde da população e sobretudo a saúde da mulher são tratadas dessa maneira.

  2. Nossa Bia, não fazia idéia de que os números de esterilização feminina em nosso País (e mesmo Mundo) eram tão grandes!! Estou pasmo! Meus parabéns pela excelente e profunda análise da questão no País. Acho que existe um fator cultural importante nesses casos. O método contracpcional que seria mais simples e menos drástico (a simples camisinha) sofre repulsa de uso entre os homens… quando vi os números de mulheres de baixa renda foi o que pude inferir. Não sei como as pessoas encontram tanta coragem, acho que são meus valores espirituais falando por mim… uma pena. Como é possível mudar essa cultura machista que põe o homem isento de sua responsabilidade na concepção? Mulheres! Exijam respeito de seus parceiros! Vcs não são obrigadas a passarem por um método cirúrgico só para que ele tenha mais prazer! Quando a decisão é tomada com cuidado, com vontade própria, fico mais tranquilo, mas esses outros casos me parecem tão invasivos…..

  3. Oi, Srta. Bia! Muito legal seu texto, cheio de informação de qualidade.
    Achei curioso você estender a questão para casais homossexuais. Se pensarmos em relações polígamas entre bissexuais, por exemplo, a situação se aplicaria da mesma forma que para casais/grupos heterossexuais. Mas não consegui entender porque um casal homossexual (presumindo a união estável e a relação monógama e não bissexual) poderia querer fazer uma laqueadura.

    Um abração!

    Kenia

    • Kenia, acredito que algumas pessoas não façam a união está para estabelecer um vínculo monogãmico, mas para ter direito a usufruir do plano de saúde do parceiro, por exemplo. Então, imagino que em relações bissexuais, abertas ou poliamoristas, uma mulher que tem união estável possa querer realizar a laqueadura. Também imagino que possa haver casos de homens transexuais que não realizaram histerectomia, e que optem pela laqueadura tubária para se prevenir de uma gravidez indesejada. Por ter esses casos que talvez fujam ao corriqueiro, pensei em fazer essa observação, já que a sociedade conjugal é uma regra.

      • É, na verdade não havia pensado no caso de transex, nem no caso de união estável de fachada. Ponto de vista interessante. Obrigada!

        Um abraço.

        Kenia

        • Oi Bia, parabéns pelo post! Ando meio sumida e fico muito feliz quando entro no Blog e encontro posts como esse!! Quanto às questões acerca do direito à esterilização de pessoas trans e homo, acho que elas são especialmente capazes de revelar uma das características mais problemáticas do sistema de saúde brasileiro, que ainda concebe os direitos sexuais como parte dos direitos reprodutivos, baseando-se, para isso, nas relações de conjugalidade heterossexual e monogâmica – sem mencionar que isso desemboca numa série de discriminações de gênero, misoginias etc. Nesse sentido, tanto fica difícil por exemplo que mulheres lésbicas jovens, solteiras e sem filhos conquistem o direito a esterilizar-se na rede pública como fica difícil – pra não dizer impossível – que homens transsexuais possam conquistar a identidade de gênero que lhes corresponde e ao mesmo tempo manter suas capacidades reprodutivas ou mesmo engravidar e ser atendido como corresponde em todas as fases da gestação, por que não?!
          Para vermos como as discussões sobre saúde e gênero são essenciais para a conquista de uma sociedade mais igualitária em outros sentidos… uma vez mais, parabéns pelo post!

          Brunela

  4. Tenho 37 anos, nível superior de escolaridade, casada e nunca quis ter filhos. Informação sobre métodos anticoncepcionais nunca me faltou, tanto que jamais engravidei. Entretanto, desde os 33 que tento fazer uma laqueadura sem sucesso, porque os médicos insistem em se recusar a efetuar o procedimento, cada qual alegando uma coisa e todas as coisas alegadas assim foram ao arrepio da lei, literalmente inventam requisitos mesmo que eu esfregue a norma na cara deles – e eu já fiz isso duas ou três vezes.

    E essa alegação do arrependimento jamais me convenceu, pra mim é só mais uma forma de alguém regular a sexualidade alheia. Se eu quiser fazer uma lipo de corpo inteiro, colocar silicone e meter fios de ouro na cara pra fazer um lifting facial, NINGUÉM vai me perguntar sobre arrependimento, sendo que tais processos são cirúrgicos e arriscados. Vão me perguntar quando eu quero operar, isso sim. Agora basta que a coisa verse sobre o ÚTERO de alguém que pronto, o mundo cai e mil empecilhos são criados.

    E daí se a mulher se arrepender? Adote, ora. Médico algum pode ser responsabilizado legalmente por ter agido 100% dentro do que a norma legal determina. Então essa é outra desculpa que não me convence.

    Engraçado que para meu marido fazer vasectomia sequer perguntaram se ele tinha ou não filhos, bastou a idade. No meu caso, já me disseram que eu tinha que ter 35 anos, 3 filhos vivos, indicação médica de ruptura uterina em caso de gravidez ou problemas cardíacos (que???) e toda sorte de asneiras.

    Sim eu poderia entrar com uma liminar judicial, mas e o medo do cara me operar na marretagem? Posso processar depois, mas e aí, eu NÃO QUERO FILHOS SOB NENHUMA HIPÓTESE então esse é um risco q não posso correr já que não tem como devolver pra fábrica.

    Enquanto isso, fico aqui me enchendo de hormônios e usando camisinha mesmo casada porque uma classe suja que só visa os próprios interesses não me opera nem que eu PAGUE pra isso. Não mencionei ainda, mas eu não pago plano de saúde, faço tudo no particular.

    • Situação bem parecida com a minha. Sou solidária a você. Tenho 26 anos e não tenho a menor das vocações para ser mãe. Quando eu perguntei para O ginecologista sobre como funcionava a laqueadura, acredita que ele, além de não me dar NENHUMA explicação ainda teve a cara de pau de me dizer “ah! Um dia eu quero te ver com um bebê bem lindo e com um príncipe encantado”! JURO!! O que você faz um médico, que se espera ser “esclarecido” desse naipe???

      PS: Biazinha querida. Gostei do seu texto! Mas sério, eu sou a favor sim de laqueadura e também da vasectomia para acabar com a pobreza. Resolve o problema na raiz. Eu, como muita gente, está cansada de ver pessoas (homens e mulheres) que ligaram o botão FODA-SE e fazem filho em penca sem se importar com as consequências. Me tira do sério isso. Um beijo linda!

      • Andrea, cito no texto que realmente não é simples conseguir uma laqueadura. Porém, é muito perigoso dizer que a esterilização acaba com a pobreza, porque dessa maneira se define quem numa sociedade pode ter filhos ou não. E sabemos que a pobreza no Brasil está ligada a raça. Então, é extremamente higienista utilizar esterilização como forma de combater a pobreza. O que tem que ser garantido é o direito a todas as pessoas de terem acesso ao processo de esterilização se assim o desejarem e com todas as informações disponíveis.

        Se a pessoa deseja ter cinco filhos é também dever do Estado prover condições para que essas pessoas vivam bem. Retirar esse direito é violar um direito humano.

        Há muitas pessoas que não tem uma penca de filhos, mas que ligaram o botão de “foda-se” para os um ou dois que tiveram e isso também é péssimo para a sociedade. Então, ter mais ou menos filhos não é garantia de se importar com consequências.

        • Tô com a Bia. O mesmo raciocínio que me permite argumentar ou concluir que esterilizar mulheres pobres ajuda a acabar com a pobreza permitiu a Hitler argumentar pelo extermínio dos judeus. Além disso achar que a pobreza é um atributo do pobre é ignorar a existência dos infinitos processos que geram a pobreza, como concentração da riqueza, concentração do poder, racismo, machismo, discriminações inumeras, só pra mencionar os motivos que a gente ensina na oitava série. Acho que entre as primeiras atitudes que podemos tomar em favor da luta pela igualdade em todos os sentidos – incluindo as igualdades econômica, social e de gênero – é defender até o fim o direito de cada mulher independente da sua renda ou classe social, de ter quantos filhos ela quiser ou nenhum, e de que todas as condições para isso sejam oferecidas e defendidas pelo estado, em primeiro lugar.
          Parabéns pelo post Bia!!!

      • Nossa, q nojo desse comentário do ginecologista… eu não teria me contido, teria mandado ver no discurso pra esse cara saber com quem estava mexendo! Hahaha Não acho que a raiz da pobreza seja uma suposta irresponsabilidade dos casais pobres: tanto quanto as mulheres, eles não precisam de tutela por serem irresponsáveis! Mas acho que deveríamos parar de ser tratadas como se não correr mais o risco de ter filhos fosse um problema, pq daí nós teríamos uma vida sexual mais livre… e é tudo que eles não querem!

    • “Se eu quiser fazer uma lipo de corpo inteiro, colocar silicone e meter fios de ouro na cara pra fazer um lifting facial, NINGUÉM vai me perguntar sobre arrependimento, sendo que tais processos são cirúrgicos e arriscados. Vão me perguntar quando eu quero operar, isso sim.”

      Isso é tão verdade! Me incomoda demaaaaais essa inversão de valores que rola na medicina a respeito da saúde feminina… Se for pra “ficar bonita” vale tudo! Eu andei passando muito trabalho até conseguir remover um nódulo da mama, pq ia ficar com cicatriz e ter dificuldade pra amamentar. O nódulo era benigno, a cirurgia eletiva, e o tumor não provocava alteração na aparência, então q q importa se tem uma coisa no meu corpo que não devia estar lá e isso me incomoda ao toque? O q importa é o peitinho bonitinho e funcional.

      Também tenho uns sinais na pele da barriga que atendem os critérios de suspeita de câncer de pele (Assimetria, Borda irregular, Cor irregular e aumento de Diâmetro). O que o dermato do mutirão recomendou? Vai observando, se for remover vai ficar com duas cicatrizes feias na barriga… Qr dizer… ¬¬

    • Sei como você se sente!! Tudo o que diz respeito a nossa autonomia sobre o próprio corpo tem empecilhos idiotas no caminho! O pior é que, por ser jovem, eu supostamente estaria querendo fazer laquedura por irresponsabilidade (!!!!!!!!!!!!!!!!!!): seria falta de querer usar camisinha!!! Nããããão, eu não vou deixar de usar camisinha, agora adianta falar ou demonstrar? NÃO, porque por ser mulher eu preciso de um médico me tutelando! Nossa, q ódio, que revolta que isso me dá! Ninguém vai ficar “protegendo” o homem do risco que ele supostamente correria de não querer mais usar camisinha né? Ninguém vai “protegê-lo” das DSTs… no limite, ele é autônomo para decidir correr o risco, mas nós não somos! T_______T

  5. Parabéns pelo post, Bia! Muito informativo!

    Apesar de o número de cirurgias ser alto, nao me parece assim tao fácil conseguir uma laqueadura. Com certeza muitas mulheres optam por esse método por nao terem outra alternativa prática, mas eu tenho a impressao em que muitos casos – quando há o real e consciente desejo – a decisao nao está nas maos da dona das tubas uterinas.
    Eu vejo com muito mais frequência meio que uma demonizacao da laqueadura, como se a cirurgia fosse deixar uma mulher “aleijada”. A recusa de alguns médicos me parece estar muito mais ligada a idéia de que mulheres nao sabem o que querem e precisam que os outros decidam do que o receio do arrependimento. Uma prova disso é que eu conheco muitos homens bastante jovens (entre 27-35 anos) que conseguiram a vasectomia (particular, nesses casos) muito mais facilmente, sem interrogatórios, sem precisar de nenhum tipo de autorizacao/documentacao.
    No que diz respeita a esterelizacao há muito sexismo de todos os lados – é sexista considerar uma mulher inapta de tomar uma decisao definitiva e negar-lhe a cirurgia, é sexista deixar as mulheres sem outra alternativa que nao a laqueadura e é sexista coagir uma mulher a nao fazer ou a fazer uma laqueadura!

    • Pois é, Fran. citei essa dificuldade justamente no trecho em que cito o médico Drauzio Varella. Com certeza não é simples, até mesmo pelas filas de mulheres no SUS.

  6. Ler os comentários da Marla, Andrea e Aline me fez lembrar de algumas questoes:

    Também nao concordo que a esterelizacao é a solucao da pobreza – conheco gente muito humilde que criaram filhos maravilhosos e vencedores apesar das condicoes adversas.
    O que acontece em algumas situacoes de pobreza é que única forma que uma menina tem de ganhar algum “status” – ou mesmo de sobreviver – dentro de uma comunidade é tendo filhos. O número de filhos/mulher e a qualidade com que essas criancas sao criadas tem muito mais a ver com o valor da mulher como ser humano do que com a renda!

    Concordo também que é um direito humano básico a constituicao de família e também acredito que é funcao do Estado prover meios para isso. Porém (aqui vou comecar a pisar em ovos) assim como a esterelizacao deve ser uma decisao consciente, informada e pensada a pater-/maternidade TAMBÉM deveria ser. Tem gente que nao tem condicoes nem de criar uma samambaia, tratam os filhos como “brinquedos de gente grande”, nao passam o mínimo de orientacao e acham que é dever da escola e da sociedade cria-los!
    É um direito tê-los? É! Mas nao deveria ser algo completamente livre de questionamentos!

    • Fran, me pergunto mesmo se esterilizar jovens mulheres seja um caminho para acabar com um problema social. Hoje, acredito que não. Mas jamais tiraria o direito das mulheres de fazê-lo. Mas o que me parece é que isso não tem sido uma escolha clara, mas uma escolha como última alternativa.
      E bom, acho que questionar o direito de ter filhos também não é legal. Porque infelizmente, acabaríamos condenando algumas pessoas, especialmente as de uma classe social e outras não, porque não há atestado prévio de ser bom ou mal. Tanta gente muda depois de ter filhos. E claro que não existe o direito pleno de ter filhos ou não sem a legalização do aborto.

  7. Olá, muito interessante este post. Entretanto, acho que podia ter ficado mais evidente o risco que é a laqueadura tubária.
    Minha mãe optou pela laqueadura no parto do meu irmão, seu segundo filho (sou a mais velha). Quando meu irmão estava com 15 anos de idade, minha mãe teve gravidez tubária, parte da trompa regenerou, permitindo a fecundação. Mas essa regeneração não foi perfeita, e o feto morreu no “caminho para o útero”. Foi muito triste descobrir que tinha acabado de perder um irmão, e minha mãe passou MUITO mal, correu risco de vida pois demorou a identificar os seus sintomas. Quando descobriu o que estava acontecendo com ela, o feto já tinha alguma formação, não lembro ao certo com quantos meses de gestação, mas o médico informou que seria encaminhado para estudo.
    Não tenho a menor intenção de realizar laqueadura (no futuro) devido a esses problemas. Existem outros métodos contraceptivos com menos riscos (emocionais inclusive). Pensem nisso!

  8. Nunca quis ser mãe. Sofro demais com isso porque, quando se é nova, “você vai mudar de idéia” (porque existe um decreto de acordo com o qual mulheres q ñ querem ter filhos não são mulheres q ñ querem ter filhos, são seres infantis – mulher só existe pra procriar mesmo. Se não quer ter filhos ñ é mulher, é menina, é algo a menos…). Se vc é mais velha, então… é o relógio biológico, é estéril e seca de ruim, é pq vc é egoísta, etc. TUDO o q eu queria era poder fazer laqueadura e me ver livre do pânico de pílula e camisinha poderem ser insuficientes. Se eu engravidasse, ou abortaria ou morreria tentando. Não posso ter filhos, de jeito nenhum, ñ quero isso pra minha vida, e eu SEI q NÃO vou mudar de idéia. Estou plenamente bem informada das outras alternativas, mas eu tenho tal pânico da idéia d engravidar, q gostaria d me esterilizar E continuar com os outros métodos. Mas não posso: maior d 25 anos, pelo menos 2 filhos – VIVOS! -, autorização do marido… gente. Acho q o mov feminista tinha q se ocupar mais d lutar pelo direito d escolha da mulher, ao invés d dizer q nós precisamos mesmo é sermos tuteladas pq podemos nos arrepender. Sou mulher, jovem, mas segura de mim. Felizmente sou classe média baixa e tive acesso a informação mais do q o suficiente p/ poder tomar essa decisão. Queria q o Estado respeitasse isso.

    • Kátia, também quero que o Estado respeite sua decisão. Também acho que com informação e segurança você pode fazer a laqueadura. Tanto que segundo a lei, você precisa ser maior de 25 anos ou ter 2 filhos vivos. Não são os dois juntos. E o que ocorreu foi que pesquisando sobre a questão, percebi que o número de mulheres esterelizadas no Brasil é muito alto, comparado a outros países e isso tem consequências, porque a maioria das mulheres não tem acesso a informação ampla. Esse é um dado que pela quantidade de pesquisas e artigos científicos eu não posso ignorar.

      • As mulheres precisam ter acesso a informação de todas as alternativas para prevenir uma gravidez. Mas isso não justifica a forma como somos tratadas se tentamos esse método contraceptivo. Acontece q já existe um grande tabu em torno da laqueadura, porque uma mulher que definitivamente não pode ter filhos é uma mulher que pode ter relação sexual hetero (a única q mtas pessoas têm em mente) sem poder receber a punição divina do filho. Rompe com a idéia do sexo apenas para reprodução. Não se dá o mesmo com a vasectomia: homens são mto menos exigidos para se submeterem a esse procedimento!
        Ainda por cima, médicos querem nos ensinar que é importante usar camisinha, como se ela bastasse!! Sim, eu sei que eu tenho que usar camisinha. E eu quero fazer laqueadura mesmo assim. Acontece que eu tenho idade pra votar, tenho idade para responder legalmente por crimes, tenho idade para trabalhar 14 horas por dia se for conveniente para a empresa em que trabalho, aliás posso até fundar uma, contrair empréstimos, dirigir com todos os riscos que isso envolve, entrar em puteiro, mas não tenho idade para decidir não ter filhos! Como. Assim?
        Como assim?????????????
        Com o número de cirurgias plásticas disparando antes dos 16 anos, eu não consigo achar isso justo!
        Devemos defender a ampla difusão de informação e planejamento familiar, mas tente contemplar o outro lado tbm.
        “pelo menos, com dois filhos vivos”: por que não com um filho? Por que não ser filhos? Por que a maioridade não basta? Por que “aconselhamento (…) visando desencorajar a esterilização precoce”? Por que não dar autonomia para a mulher decidir? Pra manter pelo menos a reposição da população (cada 2 pessoas terem 2 filhos ao menos), só se for. Pq ñ bem-estar da mulher eu ñ acredito q se tenha pensado. Sinceramente, num país em q sequer o aborto é legal, acho isso um insulto.
        Para mim, “É condição para que se realize a esterilização o registro de expressa manifestação da vontade em documento escrito e firmado, após a informação a respeito dos riscos da cirurgia, possíveis efeitos colaterais, dificuldades de sua reversão e opções de contracepção reversíveis existentes.” + “ão será considerada a manifestação de vontade, na forma do § 1º, expressa durante ocorrência de alterações na capacidade de discernimento por influência de álcool, drogas, estados emocionais alterados ou incapacidade mental temporária ou permanente.” deveriam ser suficientes. Se a pesso já sabe de tudo isso, nada mais devia ser considerado necessário.