O BBB e a responsabilidade de evitar uma gravidez

Texto de Bia Cardoso.

Estamos em época de Big Brother Brasil. E, por mais que o programa provoque ódio em muitas pessoas, sempre gera discussões e polêmicas. Corroborando a ideia de que reality show é um microcosmo da sociedade, a violência policial do Estado e o racismo foram temas que geraram discussão por causa de participantes do programa. Essa semana foi levantada a questão de métodos anticoncepcionais porque a participante Talita pediu a produção uma pílula do dia seguinte pela segunda vez em menos de um mês.

Rafael e Talita no BBB15. Imagem: Rede Globo.
Rafael e Talita no BBB15. Imagem: Rede Globo.

Rafael e Talita estão juntos desde as primeiras semanas do confinamento. A produção do BBB disponibiliza camisinhas masculinas, mas por duas vezes o casal não usou o preservativo e Talita quis recorrer a pílula do dia seguinte. Na primeira vez, a produção forneceu o contraceptivo de emergência. O fato de terem feito sexo sem proteção foi tão comentado que acabou virando pauta de outros programas da emissora, como o Encontro com Fátima Bernardes. Na segunda vez, a produção demorou um pouco mais a entregar a medicação e avisaram que Talita terá que conversar com um ginecologista para tomar um anticoncepcional comum. Aline, outra participante que tem um relacionamento com Fernando, também pediu uma pílula do dia seguinte a produção do programa.

Por toda a internet há milhares de pessoas julgando e criticando Talita por isso. Pessoas perfeitas que nunca fizeram sexo sem proteção, assim espero. Pessoas que batem no peito para dizerem que a mulher está se desvalorizando ou que ela é burra. Raramente um comentário condena a atitude ou falta de atitude de Rafael.

Até acredito ser prudente que a produção do BBB 15 chame um ginecologista para receitar um anticoncepcional regular a Talita, além de reforçar o uso da camisinha. A Rede Globo é uma emissora com concessão pública e o programa é visto por inúmeras pessoas, um de seus objetivos deveria ser a preocupação em transmitir informações e se responsabilizar pelo que os participantes falam e fazem no programa. Porém, por que apenas Talita é chamada para conversar? Por que apenas ela deve ser repreendida por não usar camisinha?

Talita é uma mulher adulta e como podemos ver, possui vida sexual ativa. Assim como muitas pessoas, arrisca-se ao não usar preservativo — que não evita apenas a gravidez, mas também doenças sexualmente transmissíveis. Também coloca sua saúde em risco ao fazer uso da pílula do dia seguinte como contraceptivo comum. Porém, se as camisinhas disponibilizadas são apenas as masculinas, Rafael também não deveria ser responsabilizado por esse vacilo? Ele também não deveria ganhar uma “bronca” da produção do programa ou participar da conversa com a médica?

Segundo a imprensa: depois de se consultar com uma ginecologista na casa do “Big brother Brasil 15”, Talita foi ao quarto azul falar com Rafael sobre as orientações que a médica deu. Debaixo das cobertas e calado ele estava, debaixo das cobertas e calado ele ficou:

É por isso que quando há uma gravidez indesejada, a culpa social e os dedos apontados recaem exclusivamente sobre a mulher. É a mulher quem tem que se prevenir, é a mulher quem tem que tomar cuidado, é a mulher quem tem que se preocupar com uma gravidez.

Rafael e Talita são pessoas adultas. Precisam ser responsabilizados em conjunto. Eles estão tendo relações sexuais sem preservativo num programa transmitido em rede nacional e no dia seguinte recorrem a pílula do dia seguinte. Isso mostra o quanto as pessoas ainda são desinformadas sobre métodos contraceptivos hormonais de emergência e seus efeitos, mas também o quanto um casal não se responsabiliza em conjunto pela prevenção. Talita já relatou que utiliza o método da tabelinha, um dos mais falhos.

Enquanto a prevenção e o compromisso de evitar uma gravidez for uma preocupação apenas para uma das partes do relacionamento, não avançaremos nesse campo. Não avançaremos nem mesmo na pauta da legalização do aborto, porque enquanto a mulher for a única “culpada” por uma gravidez indesejada, a sociedade continuará desrespeitando seus direitos individuais básicos, pois sempre a verá como aquela vagabunda que não fechou as pernas.

É urgente reconhecer o direito das mulheres a terem uma vida sexual plena. Também é urgente que a informação sobre métodos contraceptivos, especialmente tipos, formas de uso e efeitos colaterais, sejam compartilhados diariamente na mídia e entre as pessoas, especialmente em espaços educacionais. Para que isso aconteça é preciso que a prevenção seja compromisso de todas as pessoas envolvidas. A produção da Rede Globo não pode negar um medicamento que Talita teria fácil acesso fora do confinamento e deve repor regularmente o estoque de camisinhas disponibilizadas. Mas também precisa tratar essa questão como responsabilidade de Talita e Rafael.

+Sobre o assunto:

[+] Sexo no BBB: usar camisinha não é responsabilidade só da mulher, não! Por Nina Lemos.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.