Autonomia, solidariedade e poder: o caso da limpeza

Texto de Deh Capella.

Cena 1: hora do fechamento de uma biblioteca localizada numa grande instituição pública de ensino. Os funcionários fazem a última ronda em busca de livros para serem levados ao balcão, de onde sairão para a guarda no dia seguinte. Verificam se ainda há usuários no local, apagam luzes. Encontram mesas com papeis — amassados ou não — mesas de estudo individual sem cadeiras, salas de estudo com cadeiras demais, mesas de estudo em grupo fora do lugar, livros no chão (!), aparas de lápis e borracha em algumas mesas também.

Cena 2: Domingo, horário de pico na praça de alimentação de um shopping. Quem vem dos restaurantes com sua bandeja anda de um lado para outro, leva vários minutos para encontrar lugar para sentar. O irônico é que algumas mesas não estão ocupadas por pessoas, mas por bandejas com restos de comida, pratos e embalagens. E ficam assim até uma das funcionárias de limpeza retirarem a sujeira.

As duas situações são bastante corriqueiras e se repetiram bem na minha frente, ostensivamente, nas últimas semanas. Coincidentemente quando se discutiu bastante no grupo a questão do trabalho doméstico e quando um texto publicado pelo Thiago Beleza também tratou do mesmo assunto: Eu limpo minha sujeira. E você?

A Tica Moreno jáfalou aqui no blog sobre a condição da mulher que trabalha como empregada doméstica: ‘E o lixo do banheiro, quem tira?’. Mas o texto do Thiago toca justamente no ponto que tem me chamado atenção nesses dias em que finalizo meu trabalho colocando cadeiras no lugar e jogando papel usado pelos alunos no cesto, recolhendo livros do chão, apagando luzes de salas completamente vazias: a autonomia para cuidar de si e do espaço que se ocupa.

Tenho vários motivos ao não contratar uma empregada doméstica para me auxiliar no serviço doméstico, mas um deles é o fato de que não me sinto bem em ter outra pessoa para limpar e organizar as minhas coisas. A ideia de alguém lavando e passando minhas roupas, abrindo minhas gavetas, tirando o pó dos meus livros, guardando minhas panelas sempre me pareceu desagradável.

É claro que eu percebo que o foco está no pronome possessivo, “meus”, “minhas”. Por isso mesmo não sai da minha cabeça o fato de que o que é meu é de minha responsabilidade e, não me parece decente delegar essa tarefa a outra pessoa — que deveria, como bem me lembrou a Georgia Faust, ganhar pela hora trabalhada o mesmo que ganho no meu trabalho fora de casa.

Aí, vamos cair na questão financeira também. Ora, eu não posso pagar a uma funcionária doméstica o mesmo que recebo — tenho outros compromissos assumidos com o meu dinheiro e também prefiro gastar com outras coisas. A Rita Paschoalin me lembrou que é importante também pensar que eu posso ajudar a distribuir renda fazendo meu dinheiro circular. Mas, ainda pesa muito para mim a ideia de que eu posso cuidar da minha casa, do que é meu, então não tenho qualquer necessidade de contratar uma pessoa — mesmo registrada e com todos os direitos trabalhistas garantidos — que venha trabalhar para mim.

Na última semana, remanejando cadeiras de uma sala de estudo para mesas individuais de onde foram retiradas e, para as quais não foram devolvidas, pensei: “eu não estou aqui para isso. Minha função não é essa”. Então, me passou pela cabeça a função dos meus outros colegas, funcionários técnicos — também não é sua obrigação e nem das funcionárias da limpeza. A quem caberia manter os raios das cadeiras nos seus lugares? Aos usuários da biblioteca, pombas!

Foto de ‘Vejo Tudo e Não Morro’ no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Que tipo de gente tira uma coisa do lugar e não a coloca de volta? Que tipo de gente sai numa boa de uma sala que encontrou, com luzes apagadas, e não bate a mão no interruptor ao sair? Como é possível levantar da mesa e não recolher o papel que utilizei? Penso que essas perguntas simplesmente não ocorrem às pessoas que não veem nesses gestos (que deviam ser corriqueiros e automáticos) manisfestações de autonomia e solidariedade.

O mesmo vale para as pessoas que se levantam após o almoço ou lanche na praça de alimentação e deixa suas bandejas lá, com restos de comida, pratos, talheres, copos descartáveis. É provável que isso também aconteça com quem usa o carrinho de supermercado e não o devolve ao local destinado.

Já ouvi uma pessoa — filiada a partido de esquerda, militante, inflamadíssima, com discurso opressor/oprimido afiado e dedo apontado para sua superior direta na escola onde trabalhávamos juntas — dizendo, com a cara mais séria do mundo, que: “se a gente tirar a bandeja do lanche da mesa e levar o carrinho do supermercado para o lugar dele, vamos deixar de gerar emprego pros companheiros”.

Deixei o retruque ficar na garganta (e morri de culpa depois), mas não era o caso de ter perguntado a essa pessoa se ela não achava que isso era fruto de uma mentalidade de origem escravocrata, que considera que há pessoas a serem servidas e pessoas destinadas a servir? Será que ela acha que viver de levar carrinho de supermercado ao lugar era um emprego ou subemprego? Também poderia perguntar se ela gostaria que sua filha limpasse a sujeira dos outros, para ouvir, talvez, que não há qualquer problema em limpar sujeira alheia e este é um trabalho como qualquer outro. Pois muito bem, se é um trabalho como qualquer outro, por que as pessoas que o desempenham são invisíveis na nossa sociedade? Por que ganham menos?

Não me enfureço por ter que jogar papel em lixo ou transportar cadeiras. É algo necessário para manter meu local de trabalho em ordem e não gasto mais do que dez minutos do meu dia. Porém, o que não vai sai da cabeça é a revolta com as pessoas que enxergam o mundo a partir de uma perspectiva umbiguista demais, percebendo aqueles que estão em volta como gente que está ali para atender às suas necessidades mais básicas, a qualquer momento. Não dá pra acreditar muito na construção de uma sociedade mais solidária se essas pequenas atitudes revelam que as pessoas ignoram sua autonomia, só pra exercer um pouco mais de poder sobre o espaço e sobre os outros.