Mitos Femininos e os Clássicos Disney

Texto de Liliane Gusmão.

Lembro de ter visto Cinderela no cinema, lembro também que escutava avidamente todas as outras estórias de princesas, da coleção de disquinhos da Disney, que tínhamos. Quando eu era pequena, não vivi essa adoração pelas princesas, que vemos hoje, mas confesso que lembro de brincar de ter cabelo comprido, (meu cabelo é encaracolado e quando criança cortava sempre bem curto).

Ter o cabelo comprido e liso era o meu sonho dourado de beleza na infância, eu devia ter uns seis anos. O cabelo comprido nas nossas brincadeiras era uma camisola de jersey que colocávamos na cabeça como um véu de Freira e assim fingíamos ter longas madeixas. Mas não lembro de fingir ser princesa especificamente, mas linda e rica sempre, o que no fim dá na mesma.

Princesas Disney. Imagem: Divulgação.

Muito tempo depois quando finalmente comecei a prestar atenção em crianças, e já pensava em ter filhos, achava essa adoração das princesas um saco, um exagero. Na verdade a Barbie e as princesas para mim, ainda hoje, são difíceis de aturar.

Escapei de conviver com as princesas na primeira gravidez, por que tive um menino, mas na segunda gravidez não escapei. A pressão da sociedade em diferenciar as crianças, e em separar brinquedos, brincadeiras, filminhos é muito, muito forte. Eu resisti o quanto pude, mas quando minha filha, com quase 3 anos, começou a brincar com as Barbies das amigas, vi que não conseguiria adiar por muito mais tempo.

Não fui a protagonista na introdução dessas bonecas, nem dos filmes das princesas, apenas deixei elas entrarem gradualmente aqui em casa. As duas Barbies que ela tem hoje foram presentes, e os filmes das princesas também… Nunca os reprimi de brincar com nada os dois brincam com bonecas, carrinhos de corrida, ferramentas e panelinhas, igualmente, não existe isso é de menina ou de menino aqui em casa. E se surge explico logo que brinquedo é de criança. Os filmes os dois sempre assistem juntos seja o bombeiro Sam ou Rapunzel.

A Bela Adormecida foi o primeiro que assistimos, ela ganhou de presente da avó, mas não fiz alarde, depois foi Branca de Neve e Cinderela todas na versão antiga. Nada de remasterização nem brilhos extras, já tem mensagem suficiente nos clássicos.

Outro dia estávamos na cozinha, a família inteira, organizando uma refeição, e meu marido colocou para escutarmos a versão de Branca de Neve que temos da coleção dos disquinhos Disney. Foi um show de horrores escutar aquilo. Toda a estória é cheia de estereótipos e o diálogo entre a princesa e os anões foi o que me chocou mais nesse dia em particular e acho ser material suficiente para um TCC sobre misoginia e estereótipos de gênero.

Humildemente admito que não tenho condições de analisar o discurso desses personagens o que não me impede de fazer algumas considerações.

Mulher é invejosa, não tem amigas e só pensa em competir com outras mulheres.

Rainha má, bruxa, vaidosa e narcisista. Tem tanta inveja da beleza da enteada a ponto de mandar matá-la para ficar com o título de mais bela dentre todas as mulheres. Na cena da maçã ainda mandam a mensagem de que mulheres desobedientes são castigadas, e que mulheres enganam e envenenam umas as outras para conseguir seus objetivos.

Mãe, mulher, cuidadora da casa e dos filhos.

Ao chegar na casa dos anões Branca de neve entra e narra a bagunça e a sujeira da casa. O pó, as teias de aranha e a louça entulhada na pia. Abismada com a desordem e a sujeira ela se indaga como esse meninos podem ser tão sujinhos, será que eles não tem mãe? Depois de avaliar o tamanho da bagunça ela põe-se a limpar, afinal mesmo não sendo sua casa, ela como mulher, só poderia fazer isso mesmo.

Mulher não merece confiança, mas sabe fazer comida.

Quando os anões encontram Branca de Neve em seu quarto, depois de descobrirem que não se trata de um monstro e logo após as apresentações, a fala de Zangado, chega a ser grotesca. Diz na bucha que mulheres não merecem confiança são, más, mentirosas, dissimuladas e perigosas. Feiticeiras. Branca de Neve ri e adivinha seu nome: ‘você só pode ser o Zangado’, diz ela. E logo em seguida pede abrigo para fugir da perseguição da madrasta, troca a estadia pela promessa cuidar da casa e cozinhar para eles. Zangando ainda se opõe mas é voto vencido apenas porque seu oponente sabe fazer tortas de maçãs. Então a lição mulheres são um mal necessário elas são perigosas mas limpam tudo e cozinham.

É horrível pensar que geração após geração essa estória se repete e as crianças vão aprendendo o que é esperado delas. E o pior de tudo: é impossível não contar essas estórias para nossos filhos, se não contamos em casa eles escutam na escola, na casa dos amiguinhos, ou na dos primos. Na verdade depois de muito refletir comecei a pensar que é melhor que eu mesma conte, pois posso sempre, intervir e mostrar aos dois que nem sempre as pessoas são assim, convidá-los a imaginar um final diferente para as princesas ou ainda concordar com o pequeno quando ele sugeriu que: ao invés de ficar chorando, por que foi deixada em casa sozinha na noite do baile, Cinderela faria melhor em chamar a polícia para prender a madrasta malvada!

Autora

Liliane Gusmão é Feminista, sim!