Mulheres, rock e palcos

Alguém na minha timeline perguntou: feminista gosta de metal? Goooosta. Feministas gostam de música de todos os tipos e gostam muito de rock. Tenho várias feministas acompanhando o Rock in Rio e tuitando ou atualizando status no Facebook, e certamente há várias delas nesse instante batendo cabeça ao som de Mötörhead – que é meu fundo musical nesse instante. Outras tantas darão as caras nos três dias do SWU, em novembro – eu incluída com meu cartaz de coração vermelho escrito “Mike Patton” com letras de glitter.

Joan Jett em show realizado em Spokane (EUA), em 15 de setembro deste ano. Wikimedia Commons.

No princípio era o rock, e era música do demônio. Se não era música nem pra gente de bem, imaginem se ia ser música pra mulher ouvir! E no princípio as mulheres apareciam no máximo como plateia e backing vocals. Também apareceram algumas vezes como pomos da discórdia – Courtney Love e Yoko Ono são as grandes representantes da categoria controversa. Aos poucos as guitarras, baixos, baterias e microfones passaram para as competentes mãos femininas – e feministas. Meu altarzinho devocional roqueiro tem um lugar garantido pra Debbie Harry, Chrissie Hynde, Siouxsie, Joan Jett, Kim Deal, Kim Gordon e Nina Gordon & Louise Post do Veruca Salt. Mas essa é a minha listinha. Ela podia incluir Janis Joplin, Pat Benatar, Patti Smith, a própria Courney Love, Kate Bush, Ann e Nancy Wilson do Heart, Shirley Manson, Gwen Stefani, Alanis, Tarja. Vejam que nem comecei a incluir as brasileiras.

Estamos em dias de Rock in Rio. Hoje é o “dia metal” (os mais maldosos podem dizer que hoje é o “dia rock”, malhando aquele ferro da presença maçiça do pop e da MPB no festival – como já foi dito por aí não dá pra estranhar a tendência pra um festival que teve Elba Ramalho, New Kids on the Block e Milton Nascimento em outras edições): Sepultura, Gloria, Slipknot, Mötörhead, Metallica, Coheed and Cambria, Matanza, Korzus, Angra, B Negão. E Tarja Turunen. Para mais de 50 músicos hoje tivemos uma mulher no palco – e não foi  no principal.

A diversidade foi mais contemplada nos dias anteriores: Claudia Leitte, Katy Perry, Rihanna, Maria Gadú, Mariana Aydar, Sandra de Sá, Bebel Gilberto, Tulipa Ruiz, Cibelle, Mette Lindberg (do Asteroids Galaxy Tour, que pra mim foi grata surpresa no primeiro dia), Karina Buhr, Amora Pêra, Speranza Spalding; houve mulheres no palco do Mondo Cane + Orquestra de Heliópolis – instrumentistas da orquestra e backing vocals. Teremos ainda Céu, Shakira, Ivete Sangalo, Tiê, Pitty, Amy Lee (do Evanescence). Não computei possíveis presenças femininas entre atrações eletrônicas porque..er…não conheço música eletrônica. Assim, de forma alguma. Além disso, se a gente der aquela olhadona na lista de mulherada presente no Rock in Rio vai perceber de cara que a maior parte das mulheres não toca ou canta rock como proposta principal – são quase todas vinculadas a MPB e pop. A maioria jovem e branca.

Uma matéria do The Guardian, Behind the music: Where are the women at the biggest festivals? fala sobre a presença feminina em festivais britânicos e mostra que as mulheres foram 1/24 dos artistas a tocarem nos 4 principais shows de Glastonbury – apenas Beyoncé se apresentou, e não foi no dia considerado principal; o texto também conta que no Reading Festival não houve mulheres entre as atrações principais, e apenas uma meia dúzia de gatas-pingadas se apresentou, dentre as dezenas de atrações programadas. De acordo com Helienne Lindvall, autora da matéria, a produtora principal do festival sueco Arvika contou que em 1992 só 5% dos artistas eram mulheres e “em 2004 o festival trouxe mais homens chamados Jonas do que mulheres” (tradução livríssima minha).  Procurou-se então convidar mais mulheres, e neste ano a proporção foi de 30% de artistas do sexo feminino. Viktoria Lindén, a produtora, espera que a maior presença de mulheres nos palcos seja inspiradora para as potenciais roqueiras e que o preconceito seja combatido. Então podemos dizer que a tendência de colocar poucas mulheres no palco – e, a julgar pela experiência de Glastonbury, privilegiar mulheres do pop e não do rock – é mundial. Infelizmente.

Tarja Turunen e Angra, logo após o show no Rock in Rio. Bonzinho pra algum redator fazer legenda "a bela e as feras", não? Foto de Rodrigo Esper/grudaemmim

Mas voltando às plagas brasileiras e ao Rock in Rio. A cobertura jornalística também é cruel com a imagem feminina: a maior parte dos comentaristas colocados pelos responsáveis pela transmissão (Grupo Globo) é mulher, mas atendendo àquele princípio de agradar aos olhos sem necessariamente agradar ao intelecto, escolheram moças bonitas mas pouco entendidas do riscado. O tom, mesmo entre as moças com passagem pela MTV, é de estranhamento/distanciamento com o Estranho Mundo do Rock – pouco conhecedoras e pouco preparadas. As moças da plateia com certeza fariam papel bem menos feio.

Ah, e o público. Não bastam as reportagens que sempre mencionam o estilo e a aparência das cantoras e instrumentistas (é imperativo escolher “musas” pra tudo) – afinal, vivemos no país onde a Presidenta precisa falar sobre maquiagem e onde candidatas ao cargo e ministras têm seu guarda-roupa analisados com detalhes e palpites -, ainda topamos com matérias que pretendem mostrar o “toque feminino” que é dado pelas mulheres presentes ao festival. Há matérias dando às leitoras dicas a respeito da vestimenta ideal para festivais, o que não vemos em textos destinados ao público masculino e reforça a impressão de que mulheres não estão habituadas a frequentar esses eventos ou a ideia de que a mulher precisa de tutorial ou normatização para se vestir em qualquer ocasião. O Rock in Rio também rendeu um daqueles textos que analisam a aparência do público feminino presente no festival. O grande incômodo desse tipo de reportagem, pra mim, é a impressão de que esse tipo de matéria só reforça a presença da mulher como enfeite, mesmo como “exótico”, e ressalta também a figura feminina como algo pouco próprio àquele ambiente – o incomum, o pouco usual. Ninguém faz reportagem comentando no “dia metal” as correntes, camisetas e alargadores dos homens que vão lá. Então mais uma vez repito meu mote: quando se ressalta determinada atitude ou comportamento é porque não se trata de algo perfeitamente integrado àquele contexto (já escrevi aqui em outro post que vamos poder considerar os homens totalmente integrados ao ambiente doméstico na nossa sociedade quando sumirem as matérias destacando o “homem que ajuda” ou o “homem que assume tarefas no lar” – vai ser sinal de que isso é corriqueiro, e não extraordinário).

E vou dizer a vocês que o prognóstico para os outros festivais programados para este ano não é muito melhor. Nos três dias de SWU devemos assistir às performances de Kim Gordon (Sonic Youth), Leah Shapiro (Black Rebel Motorcycle Club), Fergie (Black Eyed Peas), Alice Glass (Crystal Castles), Susan Tedeschi (Tedeschi Trucks Band), das meninas do Copacabana Club; no Terra estarão presentes Alison Goldfrapp (Goldfrapp) e Irina Bertolucci (Garotas Suecas).

Rock não é coisa satânica-maléfica-do-capeta, rock não é macho. É música, é universal, nos toca e nos pertence também. Por um mundo onde mulher ouça e faça mais rock!

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Imagens:

1. Imagem destacada: Woman Wins Air Guitar Championship de Mike Licht, no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

2. Imagem: Joan Jett em Spokane 2011 de Imheavingfun42, no Wikimedia Commons em CC, com alguns direitos reservados.

3. Imagem: Angra e Tarja Turunen de Rodrigo Esper/grudaemmim no perfil oficial do Rock in Rio no Flickr. Todos os direitos reservados.