O que fomos e quem (não) seremos

Se eu encontrasse anjos para acompanhar a alma (que eu não sei se tenho) para o paraíso (que eu não sei se existe), uma quantidade compatível com as vezes em que ouvi mulheres falando mal do feminismo, certamente, chegaria nesse lá onírico muito bem representada.

Geralmente, na minha perversidade intelectual, eu deixo a pessoa falar tudo (de péssimo) que ela pensa sobre o movimento político, filosófico e social denominado feminismo. Mantenho apenas a cara de paisagem, às vezes, até aceno positivamente. Para dar um tom sério à discussão, posso até franzir o cenho, como quem está ponderando sobre o discurso alheio.

Quando percebo que toda a oposição foi externada, conto que sou feminista. As reações são risíveis, mas eu não gargalho porque não gosto de tripudiar sob a ignorância alheia (mentirinha…). Imaginem a situação, você acabou de falar um bando de pré-conceitos para um referente desses pré-conceitos. Nada legal, né? Já passei por essa saia justa com evangélicos e não foi uma sensação agradável. Felizmente, eles foram mais solidários e me cortaram antes de eu passar dos limites do bom-senso.

Mas, voltando às reações, a mais comum é a pessoa tentar elogiar-me, justamente, atacando um esteriótipo de feminista e ratificando aquilo que ela julga ser uma característica boa para mulheres, isto é, a aparente fragilidade:

– Você é feminista? Nossa, mas você é tão delicadinha! Como isso aconteceu?

Ou então, elas acham estranho uma mulher ser feminista e heterossexual. Ou seja, ainda compra-se a ideia de que feminista é aquela mulher que gostaria de castrar todos os homens do mundo para assumir seu espaço. Não, amig@s, deixemos os homens livres, leves e lindos para nos servirem de companhia e nós a eles, é claro!

O engraçado é que muitas dessas mulheres que criticam, ferrenhamente, o feminismo não se sentem desconfortáveis ao usar as liberdades de ação que sua luta trouxe às mulheres, como por exemplo, a vivência da sexualidade. Quando os pais dessas meninas as proíbem de transarem com o namorado, gritam que sua liberdade sexual está sendo tolhida! Que liberdade vocês teriam se não fosse o feminismo?

Foto de Ryan Smith no Flickr em CC, alguns direitos reservados

Quando o patrão oferece um aumento para o companheiro de função apenas pelo fato de ele ser homem e  o superior em questão ser um babaca, essa mesma anti-feminista vai, com razão, buscar seus direitos constitucionais. Que direitos salariais essas moças acham que teriam se não fossem as feministas?

Elas querem comprar roupas sensuais e não serem estupradas nas ruas. Elas querem andar livremente nas ruas sem que um bando de cretinos se sintam no direito de usarem ou cobiçarem seus corpos. Pois bem, tudo isso é pauta da luta feminista. Se não fossem as feministas, ainda estaríamos presas ao ambiente doméstico, a menos é claro, que algum homem permitisse a nossa saída.

Sobretudo, se não fossem as feministas, não teríamos o direito de nos educarmos formalmente. Ainda estaríamos recebendo uma educação diferenciada, cujo objetivo seria suprir as necessidades do mundo dos homens, isto é, dar base para o crescimento econômico deles próprios e de seus filhos.

Abaixo, dispomos um vídeo bastante didático e bem-humorado acerca da trajetória da luta feminista no Brasil, contado por aquelas que a fizeram.

Gostaríamos de ressaltar a encenação da praia em que duas gerações de mulheres se encontram e falam sobre as percepções de liberdade e responsabilidade que toca cada uma delas. Então, perguntamo-nos, por que os papeis parecem invertidos? Isto é, a fala menos atrelada a um passado opressor está na voz da “vovozinha”, ao passo que falas mais conservadoras surgem na boca da “mulher de 30”? Que caminho inverso é esse que algumas mulheres escolhem trilhar nesse momento propício para solidificarmos algumas das conquistas feministas, além, é claro, de avançarmos nos inúmeros aspectos ainda não conquistados?

Para aquelas que ainda estão em dúvida sobre o quanto de feminismo cabe em seu feminino, ou para quem se opõe radicalmente às propostas feministas e acredita que o melhor seria voltarmos a um passado de submissão e controle, repassaremos uma grande obra do pensamento universal chamada A perfeita mulher casada, de Luis de León (1527-1591).

Este livro foi publicado em 1583 como um manual ético e religioso adequado para representar o modelo ideal de uma mulher da Idade Média e Renascimento. A começar pelo título, vemos o quanto as coisas estão menos impositivas para nós.

Percebamos a liberdade que é não precisarmos nos casar. Qualquer uma de nós pode escolher passar a vida sem qualquer homem ou com vários homens, sem que isso afete nossa vivência social. Não precisamos nem do sobrenome, nem da proteção, tampouco do dinheiro dos homens. Além disso, podemos até mesmo dar nosso sobrenome a um homem que nos agrade e sustentá-lo por um período ou por toda a vida, a depender de quanto dinheiro possuamos. Sim, porque também adquirimos o direito de possuirmos bens, o que, até bem pouco tempo atrás, era impensável para mulheres. Dessa forma, nosso “valor” estava atrelado ao valor do homem que nos possuía, o que se evidencia quando o autor compartilha o trecho bíblico: “Mulher de valor, quem a encontrará? Raro e exageradamente caro é seu preço.” (p. 22)

Mas, é claro que o autor explica como foi que nossos bens foram expropriados e nós submetidas à condição de eternas “ajudadoras” para que as posses dos homens proliferassem:

O homem que tem forças para trabalhar a terra e o campo, para sair pelo mundo e contratar com os homens, negociando seus bens, não pode cuidar de sua casa nem tem condições; em compensação, a mulher que, por ser de natureza fraca e fria, é inclinada ao sossego e à escassez, sendo boa para guardar pelo mesmo motivo que não é boa para o esforço e o trabalho de adquirir.(p. 28)

Exatamente, nós não conseguimos adquirir nada e aquilo que herdamos, já que temos a alma boa para a escassez, deverá ser repassado. Nós temos a obrigação de cuidar dos bens do outro, mas não temos inclinação natural para possuirmos coisa alguma. Ah sim, agora ficou claro! Os homens não conheciam a palavra personal (anything), então, inventaram “esposa”. Que falta fazem algumas palavras…

Mas a mesquinhez e o abuso não param por aí. O autor segue explicando como “a perfeita mulher casada” deve economizar muito e consumir pouco:

Em verdade, se olharmos naturalmente para as necessidades das mulheres, veremos que são muito menores que as dos homens; porque é pouco o que precisam por ter menos calor natural, sendo muito feio que comam muito e sejam muito gulosas. (p. 30)

Porque gastar é contrário ao ofício da mulher, e demais para sua necessidade; (p. 32)

Arrepia-me a quantidade de vezes que a palavra “natural” surge nesse texto. É natural que se naturalizem fatos absurdamente irrelevantes para explicar a importância do acúmulo de capital pelos homens? Senti muita vontade de ser gulosa…

No entanto, o autor não é de todo ruim, ele explica que um homem temente a Deus deve tratar bem o objeto que Deus lhe deu. Até eu, que sou uma mera mulher “de espírito fraco”, trataria bem um objeto que está me servindo. Um objeto, um objeto, um objeto… Cantadas reificantesagressões, estupros, homicídios são atitudes que alguns homens costumam ter diante desse objeto histórico, isto é, as mulheres:

E como a mulher, como dissemos acima, foi dada ao homem para alívio de seus trabalhos e, para repouso, doçura e afago, pela mesma razão e natureza pode ser tratada por ele de modo doce e afetuoso porque não se consente que se despreze alguém que lhe dá conforto e descanso, nem que traga guerra perpétua e sangrenta com aquilo que tem o nome e o ofício da paz. (p. 35)

Mas se a danadinha da mulher escapar ao padrão da submissão pacífica, qual será o destino que um homem de Deus deveria dedicar a ela, hein, senhor Luis de León?

Enfim, esses trechos evidenciam o tipo de comportamento a que nós, mulheres, fomos obrigadas a nos sujeitarmos. Nosso corpo nunca nos pertenceu. Nosso trabalho foi apropriado, licitamente, em benefício do outro, o homem, o proprietário “natural”. Negando todo esse padrão deturpado, muitas mulheres tiveram a coragem de contestar o status quo e é apenas por isso que, hoje, muitas de nós tem o direito de se pronunciar contrária ou favorável a qualquer corrente filosófica, teológica e/ou política. Tornamo-nos sujeitos emancipados, mas o que faremos com essa pontinha de liberdade? Feministicamente, exigiremos toda a liberdade que merecemos!