“Premiação igual para mulheres é ridículo”

Essa não foi a fala de um tiozão machistão no almoço de família, nem uma citação do século passado. Essa pérola foi proferida dias atrás, pelo jogador de tênis número 8 do mundo, Janko Tipsarevic.

O jogador contestava o fato de que os prêmios em dinheiro são iguais para homens e mulheres nos principais torneios do ano, os de Grand Slam. Tais torneios são os mais importantes eventos de tênis do ano, em termos de pontos no ranking mundial, tradição, valor dos prêmios em dinheiro e atenção do público. São o Australian Open, Roland-Garros, Wimbledon e o US Open. A igualdade no valor das premiações é uma conquista que veio com muita luta da WTA – Women’s Tennis Association. A equiparidade na premiação em todos os 4 torneios só veio em 2007.

Volta e meia aparece um homem que não quer largar o osso, com argumentos que não se sustentam. Entre as argumentações há três principais:

1. Duração dos jogos nos grand slams

A maioria dos torneios de tênis é em melhor de 3 sets. No entanto, nos torneios principais do ano, os homens jogam melhor de 5 sets, enquanto as mulheres continuam jogando melhor de 3 sets.

Mas, qual é o sentido de dar prêmios maiores para quem joga mais tempo? E como medir quem joga mais? Há jogos que são vencidos em uma hora, tanto no masculino quanto no feminino. Tem outros que duram longas cinco horas. Já houve partida de onze horas, mas isso é ponto fora da curva. Tem jogador que desiste por lesão e o outro nem precisa jogar.

Não faz o menor sentido atrelar o valor do prêmio ao tempo jogado. O prêmio deve ir para quem jogou melhor, não para quem jogou durante mais tempo.

Maria Sharapova e Serena Williams nas Olimpíadas de Londres. Fotos: REUTERS/Stefan Wermuth

2. Os jogos masculinos têm mais destaque, público e cobertura da mídia

Para começar, isso é um dado duvidoso. Larry Scott, ex-diretor na WTA, explica que o destaque dado ao esporte varia. Há países em que o feminino tem mais destaque e tradição do que o masculino, como na Rússia. Há locais que dão mais destaque para o esporte quando têm atletas nacionais em alta, como a Bielorrúsia e a Polônia atualmente para o feminino e, como aconteceu no Brasil, na época de Guga para o masculino. Tanto é que, nas Olimpíadas de Londres 2012, duas tenistas foram porta-bandeira de seus países; Sharapova, pela Rússia e Radwanska, pela Polônia.

Além disso, a mídia também é influenciada pelo machismo, o mesmo motivo que fazia com que os prêmios fossem diferentes antigamente. Ambos são causa do mesmo problema, e não um explicação para o outro. Os jogos femininos são menos vistos porque passam menos na televisão, logo menos pessoas assistem… Conseguem enxergar o problema?

Dizer que os jogos masculinos tem mais destaque foi o argumento do jogador Gilles Simon em junho, durante o torneio de Wimbledon. Ele falou ainda: “Vocês da imprensa fazem exatamente o mesmo. Se eu pegar o jornal, serão 4 páginas para o tênis masculino, e uma para o feminino”. A causa disso é o machismo, e é exatamente o que está te fazendo achar que merece prêmios maiores.

A também francesa Marion Bartoli, número 8 do mundo, rebateu, afirmando que: “Ainda falta muito para ganharmos tanto quanto os homens: apenas em alguns torneios e nos Grand Slams. Mas temos tanto investimento quanto eles. E as primeiras rodadas no masculino também não atraem muitos espectadores”.

Maria Sharapova também criticou esse argumento: “Acredito que os meus jogos sejam mais vistos que os deles”. A jogadora, além de atual número 3 do mundo, tem muita projeção. É, inclusive, a única mulher na lista de atletas não-americanos mais bem pagos do mundo. A única mulher entre 20 atletas. A atenção que ela recebe e o patrocínio também são decorrentes de sua beleza. Porém, isso só confirma que, quanto mais a mídia mostra, maior destaque tem.

Serena Williams também rebateu a fala de Simon: “Não é justo receber menos dinheiro do que os homens apenas porque tenho peito. Trabalho duro desde os três anos, não deveria receber menos por causa do sexo.”

3. A melhor época das mulheres acabou

Esse é o argumento mais sem sentido de todos. Eu nem colocaria na lista se não fosse justamente o que o Janko Tipsarevic usou. Segundo ele, é ridículo que as mulheres ganhem prêmios iguais aos homens porque o tênis feminino era melhor na época das irmãs Williams, Justine Henin, Kim Clijsters e Amélie Mauresmo.

Bom… Para começar, as irmãs Williams continuam jogando, né? Serena acabou de ganhar Wimbledon sozinha e em dupla com sua irmã, Venus. É a quarta vez que as duas vencem juntas em Winbledom. Porém, independente disso, se ele acha que antigamente era melhor, isso deve diferenciar os prêmios? O que ele propõe? Criar um comitê para eleger o quanto cada época do tênis merece ganhar?

Além de não ter como definir qual a melhor época do tênis tanto para o masculino quanto para o feminino, o que “ser a melhor época” tem a ver com diferentes valores na premiação?

Ainda estou esperando um argumento válido aparecer para justificar essas reclamações. Por enquanto, fica claro o egoísmo dos jogadores baseados em apenas um motivo: o machismo.

Autora

Fernanda Marinho é redatora profissional, tenista amadora e minimalista em construção.