Tiro pela culatra: o jeito lojas Marisa de “homenagear” as mulheres

Quando eu era criança, eu ia com a minha avó nas lojas Marisa comprar roupa de baixo. Aliás, em casa de quem tinha dinheiro curto na década de 80, as roupas de baixo e de banho tendiam a vir de lá mesmo.

Mas a grande coisa da Marisa, que conquistava avós, bisavós e meninas pré-adolescentes é que tinha de tudo e de todos os tamanhos para todo mundo. Não me lembro de comerciais da loja nessa época. Talvez alguma coisa falando os preços, mas não sei se é coisa da minha cabeça ou lembrança real.

Faz tempo que não compro nada na Marisa. Até porque, na minha última experiência de grana curta, descobri que eles parcelam em um milhão de vezes mas agora custa o mesmo que em lojas mais caras.

E tão desagradável quanto essa constatação é a outra, do nível dos comerciais. Esse caso parece daquelas pessoas que colocam um tiquinho de botox aqui, outro de colágeno aqui, puxam um tantico lá e acabam com a cara do coringa, com a cara e o jeito de tudo o que elas não querem ser.

Com a Marisa é assim. Eu lembrava de ter visto um comercial lindo, com fotografia linda uns anos atrás falando do verão, que é a época de se descobrir, um upgrade mesmo na publicidade que eles faziam. Ele está aqui:

E aí, na tentativa de melhorar o que já estava bom, a Marisa botou um tantinho só a mais de sei-lá-o-quê e descambou para uma coisa de mau gosto, que ofende as mulheres, excludente como a loja em si nunca foi e com uma tentativa de emenda tão ruim que não dá nem para encontrar adjetivo.

Vamos à história. Este verão não é mais para a mulher se descobrir, é para não se descobrir, é para virar um bibelô que só vale algo se for esteticamente dentro do padrão que a agência da Marisa acha que eu, você e todas as mulheres do universo devemos seguir.

O novo padrão Marisa não é aquele que atraía minha avó e minha bisavó, é um que considera as duas um lixo. Porque elas tinham muito mais que fazer além de passar fome para ficar do jeito que o publicitário da Marisa acha legal, mas esse tipo de gente não serve mais para a loja, esse tipo de mulher que acha que pode ser uma pessoa não deve ser cliente Marisa.

O último comercial mescla a profundidade intelectual das peças de Dolly Guaraná com o respeito pela mulher desse povo que apedreja adúltera. Confira aqui:

Ele já era precedido por uma peça de responsa, provavelmente feita após cuidadosa pesquisa sobre universo feminino em filmes como “Porky’s” e “O Último Americano Virgem”:

Inspirada por tanta sabedoria, a Bernardete Ferreira, da Casa Oito de Março, em Tocantins, fez uma petição online na Change.org pedindo que a Marisa faça um comercial que valorize as mulheres de todos os tamanhos e cores. Aliás, eu super recomendo assinar.

E, simultaneamente, mulheres de várias cidades começaram a fazer protestos na frente da Marisa pedindo respeito. Tem gente que acha bobagem, mas é fundamental botar a boca no mundo quando somos é tratadaa como algo menos que um ser humano.

Protesto pacífico em frente uma loja da Marisa em Tocantins, organizado pela Casa 8 de Março, realizado em outubro de 2012. Foto de Rose Dayanne Santana.

Pela internet tem, inclusive, vários grupos tentando organizar manifestações e pretendo me unir ao pessoal de São Paulo. A mais comentada no momento é a do Femen Brazil que quebrou a loja de Belo Horizonte e dessa eu discordo. Sou contra quebra-quebra nesse caso pelas mesmas razões que me levam a ser contra a pena de morte.

Teve também o movimento online e nessa o pessoal da Almap BBDO merece o maior parabéns aos envolvidos de todos os tempos. Primeiro dizem que vão rediscutir os valores femininos e propõem a seguinte pergunta (é verdade mesmo, olha no link aqui): “Assumir as celulites ou horas de academia? Vale mais o quê?”.

Oi? Oi? Oi? Bom, não poderíamos esperar outra coisa da mente capaz de produzir esta peça memorável: O que 500 mulheres podem fazer juntas? Primeira resposta: correr uma maratona de salto alto por causa de uma barata.

Como se isso não bastasse, em vez de voltar atrás e passar a considerar que as clientes da Marisa são seres humanos, a agência criou um perfil fake para simular o que elas julgam ser a cliente padrão da loja. E, evidentemente, por mais uma vez subestimar a capacidade intelectual do resto da humanidade, foi descoberta.

Essa era da comunicação virtual tem bagunçado quem capitaneia grandes campanhas de marketing em um escritório localizado no século XX. Não adianta entender de internet, de viral, do raio que o parta, se não entender de gente. Isso não mudou. E, para os desavisados, vale o lembrete: mulher também é gente.

Espero que mais gente assine a petição, faça movimentos em suas cidades e que, as lojas Marisa ouçam a gente. Seria muito legal se eles topassem parar de brincar de babacas da internet e voltassem a ser aquele lugar de braços abertos para todo tipo de mulher, de todos os tamanhos, de todas as idades e de todos os bolsos.