Aborto, um relato

Aviso: no Brasil, o aborto só é permitido por lei em casos de estupro, risco de vida para mulher ou feto anencéfalo. Não temos como oferecer nenhuma informação sobre como fazer um aborto ilegal. 

No início desse mês publicamos o relato de H., mulher que conseguiu realizar um aborto clandestino. Recebemos diversos comentários e emails, entre eles o relato de L., mais uma brasileira que arriscou a própria vida fazendo um aborto clandestino.

Toda semana recebemos emails e mensagens de mulheres desesperadas pedindo ajuda para realizar um aborto. Infelizmente, nada podemos fazer. Por ser crime, não temos como indicar locais e nem procedimentos seguros. Porque qualquer procedimento abortivo, que não esteja previsto em lei, é clandestino.

O sentimento de estar grávida sem desejar, sem querer ver o feto se formar é devastador. Por isso, publicamos hoje o relato de L. Por razões óbvias não podemos identificá-la, mas seu desabafo deixa claro que quem ganha com a criminalização do aborto são as clínicas clandestinas, o mercado informal de remédios e quem deseja a morte das mulheres que fazem sexo por prazer.

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Texto de L.

Olá! Espero que a minha experiência sirva para mulheres que passaram ou estão passando por isso, pois trata-se de um momento muito delicado e solitário.

Em 1995, quando tinha 18 anos, engravidei do meu ex-namorado.

Tinha acabado de arrumar emprego, meu pai tinha falecido naquele ano e minha mãe sustentava a casa com bastante dificuldade. O emprego tinha vindo em boa hora.

Resolvi colocar DIU e meu namorado, que eu insistia em levar nas consultas médicas, foi comigo naquele dia. Ouvimos tudo direitinho, peguei a guia para uma ultra-sonografia e fiquei de voltar quando a minha menstruação descesse, no segundo dia.

Acontece que no meio do ciclo, numa fatídica noite, a camisinha estourou. Na hora eu senti a espinha gelar, só faltava ter dado algo errado, mesmo depois de ouvir o médico ginecologista ser enfático ao dizer “tomem cuidado”. Parece até que a minha decisão em colocar o DIU foi um teste…

Esperei a menstruação descer e nada. Fiquei nervosa com o atraso, nunca havia atrasado, minha cabeça doía como nunca, eu tinha enjôos muito estranhos, até porque nunca senti enjôos, nunca desmaiei em toda a minha vida e nunca tinha dores de cabeça como aquelas. Essas eram muito diferentes.

Voltei ao médico e ele me pediu um exame de sangue, fui correndo, no mesmo dia. A espera do resultado me fazia ficar ainda pior.

Meu namorado acompanhava todos meus passos e dizia “o que você quiser fazer, faremos” e é claro que isso ajudou demais.

Mas para minha infelicidade, o exame deu positivo. No dia, lembro até hoje, eu e meu namorado nos abraçamos num gesto de pesar, ninguém queria aquela criatura, a sensação era horrível, eu lamentava um fato como este, o da camisinha ter estourado, ter acontecido nem um mês antes de eu colocar o DIU.

Como a decisão era minha, sempre foi, pedi que ele me levasse à uma clínica que eu tinha pego o endereço com a minha prima. Neste dia, meu namorado estava trabalhando e a minha mãe foi comigo, ela sempre foi pró-escolha, e eu tenho muita sorte de tê-la tido ao meu lado naquele dia.

Cena do telefilme americano “O preço de uma escolha” (1996), com Demi Moore, Cher e Sissy Spacek. Narra a história de três mulheres encarando a questão do aborto.

Chegamos lá, uma casa, tudo muito silencioso, a secretária me olhou com cara de dó, o lugar era limpo. O médico me atendeu sem demora, disse que era obstetra, que tinha muitos anos de formado, que eu não sentiria muita coisa, seria rápido e que por eu estar grávida de pouco mais de um mês, não seria muito traumático. Explicou que faria uma raspagem no meu útero, um tipo de curetagem, perguntei se doeria, ele disse que não. Ele me disse que cobraria R$700 pelo trabalho e que eu sairia da clínica no mesmo dia. Quando ele terminou, disse que me deixaria na sala pra pensar. Fiquei com medo, olhei pra minha mãe e ela dizia que a decisão era minha. Saímos de lá e fomos pra casa.

Quando encontrei meu namorado disse a ele que não faria o aborto por aquela clínica e que tomaria cytotec, mas que antes iria conversar com meu ginecologista.

É claro que meu médico não apoiou a minha decisão, mas não interferiu, disse que se eu quisesse fazer, que fizesse, ele não poderia me orientar quanto a isso, me desejou boa sorte e disse que poderia ligar para ele quando tudo estivesse resolvido.

Para cada dia que passava eu ficava ainda mais apreensiva, chorava o tempo todo, não suportava a idéia de ser mãe, nunca foi meu desejo e meu namorado pensava da mesma forma. Quando eu pensava em ter aquela criança eu me via com um filho já crescido, solteira, sem trabalho, com uma vida medíocre e responsável por todo aquele sofrimento sobre uma vida que não escolheu aquilo. Eu me sentia irresponsável, imatura, despreparada, insegura.

Foi no dia 16 de novembro de 1995 que peguei o remédio. Meu namorado conhecia o dono de uma farmácia e foi por lá que conseguimos o remédio. Fomos para minha casa, minha mãe havia saído pra trabalhar, me deu um beijo e desejou boa sorte. Tomei o remédio conforme as instruções e deitei. Passou um tempo, comecei a sentir cólicas muito fortes, mas suportáveis, e um sangramento leve surgiu.

Depois de umas três ou quatro horas sentindo cólicas cada vez mais fortes, fui ao banheiro pela enésima vez e o sangue que descia já era forte e denso, parecia um pedaço de fígado bovino, tanto na cor quanto na textura (lembrei da história que minha mãe contava, sobre uma empregada que praticou um aborto no banheiro da casa da minha avó e entupiu o vaso). Recolhia tudo que saía de mim, chorando de dor e de medo, suando frio. Meu namorado ia ao banheiro comigo todas as vezes e segurava na minha mão, chorava comigo. Foi assim por sete horas ininterruptas. Quando acabou eu estava exausta com cólicas mais brandas. O sangue que veio a seguir era líquido, sem fragmentos, mas em muita quantidade.

Quando completou uma semana de sangramento eu fui ao pronto-socorro para saber se era um sangramento normal. O médico que me atendeu perguntou o que eu tinha feito e eu disse que era um aborto. Ele me olhou, perguntou se eu havia provocado o aborto e eu disse que não. Ele foi sério comigo, mas compreensivo e disse que eu poderia falar a verdade, mas eu fiquei com medo. No fim ele receitou que eu tomasse soro por um tempo no hospital e receitou um medicamento pra conter o sangramento.

Outra semana se passou e voltei ao meu ginecologista. Ele me pediu uma nova ultra-sonografia pra saber se estava tudo bem comigo e fez um exame de toque. Aparentemente, tudo bem. Na ultra também não aparecia nada, era como se eu não tivesse passado por nada daquilo.

Saí com outra data marcada, desta vez pra colocar o DIU, que seria no segundo dia de menstruação do próximo ciclo. E foi o que aconteceu. Coloquei o DIU e fiquei 11 anos com ele.

Depois de um tempo fiquei sabendo por uma amiga que fez a curetagem de que é uma coisa horrível, dolorosa e traumática.

Tive sorte, mas não me arrependo. Namorei mais seis anos com este cara, fiquei noiva, mas não era pra ficarmos juntos. Não me arrependo de nada e tenho sorte por ter pessoas que me apóiem em minhas decisões até hoje, mas foi duro passar por toda essa experiência sem ao menos conhecer uma mulher que já tivesse passado por isso, me senti muito sozinha, há muito preconceito e medo quando o assunto é aborto.

Hoje tenho 37 anos, meu marido é pró-escolha, conhece a minha história, me apóia e também não quer ter filhos, minha vida é boa e tranqüila e desejo do fundo do meu coração que o aborto seja descriminalizado.

Lembro até hoje daquele médico e da minha amiga dizendo como ela sofreu com o procedimento. Lamento por todas as mulheres que não têm apoio e que não tem recursos para tomar uma decisão como a minha. Ainda acredito que a minha decisão foi a melhor em todos os aspectos.