Discursos machistas na disputa eleitoral

Texto de Giulia Parise.

Aécio, em suas considerações finais no debate promovido pelo SBT no último dia 16 de outubro, olhou para Dilma Rousseff e afirmou que ela “receberá sempre o olhar altivo de um homem de bem”.

Não vou falar do que ele diz ser “calúnia”. Embora ele mereça.

Vou falar de seu discurso. De sua postura.

Eu, mulher, não quero o olhar altivo de ninguém. De ninguém.

Eu, quando médica, não quero o olhar altivo de ninguém.

Eu, sendo filha, e mãe um dia, não quero o olhar altivo de ninguém.

Sabem o que expressa um olhar altivo? Um olhar de “orgulho nobre, superioridade, e arrogância”. Vá procurar o significado.

A presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, e Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência, se cumprimentam ao chegarem ao estúdio da TV Globo, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (24), antes do último debate do segundo turno das eleições presidenciais, que acontecem neste domingo (26). No debate, Dilma Rousseff (PT) procurou fazer críticas à gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) para desgastar Aécio Neves (PSDB), que escolheu a corrupção para tentar atingir a adversária MAIS Ricardo Moraes/Reuters
Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) se cumprimentam ao chegarem ao estúdio da TV Globo, antes do último debate do segundo turno das eleições presidenciais. Foto de Ricardo Moraes/Reuters.

Ora, isso vem de um homem cuja campanha quando buscou ser feminista, disse querer mais mulheres nas Forças Armadas porque nós somos mais pacificadoras e sensíveis. É machista até se esforçando para parecer defender as mulheres.

Esse candidato brada essas palavras em tom de clara ameaça e correção, tentando intimidar, no país onde 5 mulheres sofrem lesão corporal grave a cada dois minutos.
Ele está falando isso no sétimo país que mais mata mulheres em uma lista de 87.

Ele está dizendo isso para um país em que a maioria do eleitorado é composta por mulheres. Ele se permite dizer isso para mulheres que, ainda que tenham estudado tanto ou mais que os homens, inúmeras vezes receberão menores salários.

Eu, se fosse homem, não desejaria olhar ninguém com mesquinha altivez.

Eu, mulher, não seria sensível e pacificadora por uma determinação hormonal, amigos.

Libertem-se da ideia de que nós mulheres precisamos do olhar altivo de homem algum.

Homens também não precisam dessa tentativa de ameaça e coerção. Sejamos livres.

Que a gente vote como mulheres e homens que defendem as mulheres e seus direitos de dirigir famílias, hospitais e países. E que a gente não se intimide e se defenda de qualquer que seja o violento mau olhado!

Autora

Giulia Parise tem 25 anos. Há menos de um ano para sua graduação em Medicina por uma faculdade pública paulista, o feminismo nunca foi uma demanda tão urgente. É preciso denunciar a violência sutil ou declarada contra as mulheres, extrapolando as paredes dos consultórios do SUS. 

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 22/10/2014.