#BlogFem entrevista candidatas feministas: Isa Penna

Esse mês, estamos publicando uma série de entrevistas com candidatas a vereadoras de várias cidades brasileiras, que declaram-se feministas, com o objetivo de publicizar propostas feministas e incentivar maior participação das mulheres na política.

Isa Penna é candidata a vereadora pelo PSOL na cidade de São Paulo/SP.

Coligação: PSOL/PCB. Página do Facebook: Isa Penna PSOL.

1. Você pode fazer um resumo sobre sua trajetória política até essa candidatura?

Comecei a me interessar por política aos 15 anos, quando comecei a ajudar a editar o jornal dos estudantes do meu colégio, o Sagrado Coração de Jesus. Porém passei a atuar mais cotidianamente quando entrei na PUC-SP em 2009, onde estudei até 2014. Na universidade, fui da gestão do Centro Acadêmico 22 de agosto nos anos de 2010 e uma das criadoras, em 2010, do coletivo feminista Yaba (Direito da PUC-SP), um dos primeiros coletivos feministas universitários a surgir e que hoje, felizmente, são bastante comum nas universidades.

Em 2014, fui candidata a deputada estadual pelo PSOL/SP, em uma campanha bastante modesta e que tinha como foco principal a defesa da maior participação política das mulheres. O resultado foi bastante surpreendente, já que tive quase 7 mil votos e acabei sendo a mulher mais votada do PSOL na capital de São Paulo, o que incentivou a ser candidata mais uma vez neste ano, agora para vereadora.

2. Quais você considera que são os principais problemas a serem enfrentados pelas mulheres hoje?

A minha campanha foi construída de forma coletiva, com inúmeras atividades e reuniões com mulheres de diversos cantos da cidade, onde levantamos as principais questões que afetam o nosso cotidiano. Na hora de sistematizar todos estes debates, percebemos que tinham dois problemas centrais que sofremos: a falta de tempo e a questão da violência de gênero.

A questão do tempo veem principalmente pela sobrecarga que temos com as tarefas de “cuidados”, geralmente da casa e da família, sobrecarga que vem principalmente da ausência de políticas públicas para as mulheres. Faltam vagas em creches; não existem restaurantes comunitários ou lavanderias públicas; o transporte coletivo é lento e temos que levar nossos filhos para a escola e hospital etc. Quando o Estado abre mão de garantir estes direitos, estas tarefas costumam ficar somente na mão das mulheres e todo o nosso cotidiano acaba sendo tomado por estas questões.

Sobre a questão da violência contra a mulher, acho que todas nossas sofremos todos os dias com ela. São de cantadas invasivas nas ruas até a violência física e sexual. É necessário criarmos uma cidade que seja mais segura para nós, com iluminações pública em todos os bairros; mais transportes 24hrs; aumentar e qualificar a rede de apoio às mulheres vítimas de violência; debater gênero e sexualidade nas escolas, entre outras medidas que visem prevenir a violência e dar suporte para as mulheres que infelizmente sofrerem com estas questões.

3. Qual tema feminista você tentará ter como foco caso seja eleita?

Também como fruto destas reuniões coletivas de construção do meu programa, tiramos como a pauta prioritária da minha candidatura (e de um possível mandato de vereadora) o que chamamos de “PL SP Pras Minas”, que visa construir um Fundo Municipal de Combate a Violência Contra a Mulher e esta verba seria destinada a três questões: campanhas preventivas de combate ao machismo; ampliação e melhora da rede de assistência às mulheres vítimas de violência e formação para os funcionários municipais se espacializarem na perspectiva de gênero. Este fundo seria vinculado a secretaria de políticas públicas para as mulheres, tirando a rede de assistência da secretaria de assistência social para que ela seja tratada como a questão de gênero!

4. Quais as dificuldades em ser uma candidata feminista no sistema político brasileiro?

Desde que fui candidata pela primeira vez, é muito visível como a participação política das mulheres incomoda muito. Fui, por exemplo, listada pelo site da UOL na primeira campanha como uma das candidatas mais bonitas nas eleições, como se fosse a única coisa que minha campanha poderia oferecer. Foi bastante difícil ter que lidar com esse tipo de coisa, mas ao mesmo tempo já é possível perceber que, coletivamente, nós estamos avançando e não deixamos passar batido nada disso.

Outra coisa bem comum de escutarmos é que as mulheres quando defendem suas bandeiras, querem privilégios ou que nossa pautas são menos importantes. Pelo contrário, queremos condição igual de ter acesso aos direitos, de nos sentirmos seguras no espaço público, de estarmos na política e isso precisa ser debatido pra ontem.

Sofremos muito com o machismo da nossa sociedade e isso se reflete na hora de conversar com a população e, também, internamente nos partidos. Temos falta de apoio e estrutura, que acabam sendo destinadas prioritariamente para as figuras já consolidadas, geralmente homens.

Nós já crescemos desencorajadas a entrar na política, através desse imaginário de que a responsável pelo lar é a mulher e que o espaço público é coisa de homem. Temos muito para desconstruir nesse sentido, incentivando as mulheres (isso sem falar da negritude ou das LGBTs) a serem sujeitos políticos. Para isso, não tenho dúvida de que será preciso derrotar políticos como Feliciano e Bolsonaro e as idéias que esses defendem. E faremos isso colocando nossa cara na política, sem medo e com coragem para enfrentar o conservadorismo. É à serviço disso que está a minha candidatura.