Ela é sapatão…

Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

De repente… onde está a garota talentosa? A aluna dedicada? A boa atleta? A menina inteligente? A filha carinhosa? A mulher bem-sucedida? Simplesmente, se vincula toda uma existência, ignorando todo o resto, a uma mera condição sexual. O que importa, não é mesmo? Ela é sapatão.

Enquanto produzia esse texto, numa conversa de boteco escutei um relato de uma amiga bem próxima, que elucida bem tudo que foi dissertado acima. Ela, uma moça muito responsável, profissional e competente, entrara numa nova empresa, devido a indicação de um parente. Tudo corria bem, mas sem muitos porquês e com desculpas esfarrapadas seu chefe a dispensou três meses depois. Ok, coisas da vida, não é mesmo? Deve ter sido por causa da crise. Na na ni na não, descobriu-se posteriormente pelo mesmo parente que a havia indicado, que o ex-chefe havia descoberto sua orientação sexual e que era esse o verdadeiro motivo de sua demissão.

Em palavras duras e diretas, não importa o quão gentil, empática, simpática, bondosa, uma mulher gay seja. No final de cada elogio, existira um… mas… “Que desperdício a moça é sapatão”… Meus amigos me falaram isso, meus pais me falaram isso, desconhecidos vivem me falando isso. Mais clichê? Impossível.

Continue lendo “Ela é sapatão…”

“Amamos mulheres independentes”. Amam? Até que ponto?

Texto de Pamela Sobrinho para as Blogueiras Feministas.

Ontem minha mãe me disse: “Tenho dó do seu futuro marido, você só pensa em trabalhar”. Fiquei assustada, não imaginava minha mãe me falando uma frase dessas. Reconsiderei, minha mãe tem os reflexos de uma sociedade machista e patriarcal que acha um absurdo uma mulher trabalhar muito.

Às vezes conversando com amigos ou até alguns caras com quem saio, eles dizem: Amamos mulheres independentes. Amam? Até que ponto?

Uma vez um cara me dispensou porque eu era bem sucedida no meu trabalho e ele não. Outra vez disse que a um cara que eu tinha saído dizendo que estava tranquila, saindo pouco e ele me disse: “Agora sim podemos voltar a sair”, é claro que eu não voltei a sair com esse cara e pouco me importei a se a masculinidade do outro foi afetada porque meu salario é maior que o dele.

Esses homens amam mulheres independentes porque talvez elas não tenham amarras, não tenham preconceitos, sejam livres e paguem metade da conta, mas na hora de assumir um relacionamento, eles estão preparados para tanta liberdade?

Continue lendo ““Amamos mulheres independentes”. Amam? Até que ponto?”

Assédio: estar encurralada, viver com medo, sentir a ameaça.

Texto de Pri para as Blogueiras Feministas.

Hoje, por volta das 17:15h, sentei em uma mesa de frente para um espelho. Quem me conhece bem sabe que escovo os dentes no escuro, penteio o cabelo com um olho fechado e outro aberto, e não sou muito adepta a ficar olhando pra mim. Faça as suposições que quiser, se quiser. O que de fato acontece é que sou tão apegada em reparar nos meus sentimentos, nos meus estados da alma, nos sintomas que meu corpo apresenta que a sobrancelha e o cabelo ficam em segundo plano.

Mas hoje foi diferente.

Quando me olhei de relance, percebi mexas cobres no meu cabelo. Dos dois lados algo brilhava, era largo, intenso e diria inclusive- bonito. Há mais de 1 ano adotei a estratégia de não usar nada químico no meu cabelo e deixar que ele voltasse ao seu estado cru, original. Desde então tenho feito descobertas, como, por exemplo, de que ele tem mais curvas do que retas e que seu tom natural é uma interessante mistura genética que muito me agrada.

Bom, hoje me vi. E hoje me vi diferente.

Cada vez mais gasto menos tempo em me arrumar, cada vez mais gosto da menor interferência de maquiagem possível, e continuo me gostando mais depois de sair do spinning e enquanto faço uma máscara de argila, do que toda montada para um casamento. Aprendi que tudo bem ser assim e não estou nem aí por não ter um batom cor de uva na gaveta.

Porém, de uns tempos pra cá tenho ficado sem forças. Não tenho vontade de escolher uma roupa, pego o que tem na frente, repito o mesmo sapato praticamente a semana inteira só para poupar o pensar, e faço os coques mais bizarros da história pós-blogueiras. Um erro conceitual para quem está por ai solta pelo mundo.

Mas, por qual motivo não quero cuidar desse outro lado?

Há alguns meses, quase todos os dias meus braços em algum momento, ficam fracos. Eles adormecem a noite e preciso chacoalha-los para trazê-los de volta a esse planeta. Tenho derrubado ainda mais coisas do que fazia antes, e não tenho conseguido me dedicar a novos projetos. O que aconteceu com aquela energia toda tão presente no meu estilo de encarar o mundo?

De 7 meses pra cá venho sofrendo de algo que demorei para nomear, apesar de ser um tema em constante debate. Venho sofrendo assédio.

Continue lendo “Assédio: estar encurralada, viver com medo, sentir a ameaça.”