Respeito e dignidade não se vê nos bancos de sangue

Texto de Gleyma Lima com colaboração de várias pessoas das Blogueiras Feministas.

Num mundo ideal e livre de preconceitos, somos todos homossexuais, heterossexuais, bissexuais, pansexuais. Fazemos sexo anal e oral e, ainda somos religiosos e ateus. Deveríamos ser todos e tudo. No momento em que mais se precisa “todos somos tudo”, no momento da sua morte ou da morte de alguém quem se goste somos até humanos. E, esses mesmos humanos discriminam tudo e todos, deslegitimam identidades, negam direitos e impedem até mesmo que pessoas ajudem outras.

Hoje, não vim aqui contar a história de um sujeito oculto, e sim, o desabafo do gay e ator, Leandro Grijo, que não conseguiu doar sangue porque é homossexual.

Em dezembro de 2013, eu e meu parceiro — que conheço há 6 anos — fomos à Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, por volta das 14h00, para doar sangue. Ambos entramos ao mesmo tempo, em salas diferentes, para a entrevista de pré-doação. Todas as perguntas usuais foram feitas:

-Você está doando para alguém específico? Não.

– Já doou sangue anteriormente? Sim.

– Onde? Hospital das Clínicas, Hospital Municipal de São Bernardo e outros.

– Toma algum medicamento? Sim (listei os medicamentos, nenhum dos quais impede a doação).

– Já fez uso de algum hormônio anabolizante? Não.

– Já fez uso de qualquer tipo de droga ilícita? Não.

– Possui piercings ou tatuagens? Não.

– Quantos parceiros (as) sexuais teve nos últimos 12 meses? Um.

– Praticou sexo sem camisinha nos últimos 6 meses? Não.

– Praticou sexo com alguém do mesmo sexo nos últimos 12 meses? Sim.

– Ah…. Então não pode.

Fiquei um pouco incrédulo, porque não era a primeira vez que estava doando.

Eu: Mas eu já doei anteriormente, nunca tive problemas.

Enfermeira: Mas você falou que era gay?

Eu: Sim, eu nunca menti em nenhuma entrevista.

Enfermeira: Então lá onde você fez deixaram passar, porque a lei não permite que um homossexual doe sangue. Eu quero que você entenda que não é discriminação, eu estou aqui cumprindo ordens e não sou autorizada a liberar a coleta para homossexuais.

Eu: Mas eu estou com o mesmo parceiro há bastante tempo, só praticamos sexo seguro. Inclusive, viemos juntos para a doação.

Enfermeira: Se você quiser, eu chamo a minha supervisora.

Eu: Se você acha que vai ajudar, pode chamar.

Entra a supervisora, que estava atendendo o meu namorado antes de mim.

Supervisora: Olha, moço, eu estava atendendo seu namorado e já liberei ele porque infelizmente não pode mesmo.

Eu: Ele te explicou que nós só fazemos sexo seguro e que não tivemos outros parceiros?

Ela: Você pode dizer por você, mas não pode garantir que ele não tenha te traído.

Foi bastante desagradável, visto que meu namorado já tinha saído da sala e ouviu o comentário da supervisora.

Supervisora: Além disso, o sexo entre dois homens é mais suscetível ao HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Bastante chateado, saí da sala. Eles me informaram que eu ainda poderia entrar para o banco de medulas, mas que as mesmas perguntas seriam feitas no caso de doação. Eu agradeci e saí.

Leandro não é o primeiro e, infelizmente, não será o único a lidar com uma regulamentação cheia de regras e que tem como resposta bancos de sangue vazios.

A Resolução nº. 153 de 2004 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que regulamenta os procedimentos de doação de sangue no Brasil, considera que homens que tiveram relações sexuais com outros homens nos últimos 12 meses que antecedem a triagem clínica devem ser considerados inaptos temporariamente para doação de sangue.

Porém, a Portaria n°1.353 do Ministério da Saúde, que aprova o Regulamento Técnico de Procedimentos Hemoterápicos (que inclui a resolução da Anvisa), afirma que: “a orientação sexual (heterossexualidade, bissexualidade, homossexualidade) não deve ser usada como critério para seleção de doadores de sangue, por não constituir risco em si própria”.

Estudantes colocam bolsas de sangue em árvore para estimular doação em Santos/SP. Foto de Ivair Vieira Jr/G1.
Estudantes colocam bolsas de sangue em árvore para estimular doação em Santos/SP. Foto de Ivair Vieira Jr/G1.

É visível o preconceito em relação a homens gays, bissexuais ou pansexuais. Para doar sangue essas pessoas teriam que ficar um ano em abstinência sexual, mesmo mantendo relacionamentos monogâmicos com uso de preservativos. E, talvez nem assim consigam fazer a doação. Como consequência, muitos mentem sobre sua orientação sexual no momento da entrevista. Sabemos que essas políticas estão atreladas ao combate do vírus HIV e do mito que a transmissão ocorre mais fácil no sexo anal. Porém, até mesmo o Ministério da Saúde tem feito campanhas específicas com foco em mulheres casadas, adolescentes e idosos para mostrar que não há mais grupo de risco no caso de doenças sexualmente transmissíveis.

Em 2002, mulheres passaram a corresponder a metade dos infectados pelo HIV em todo o mundo. E, em 2003, foi diagnosticado o primeiro caso de transmissão do HIV entre duas parceiras do sexo feminino. Médicos sugerem que a contaminação aconteceu devido ao compartilhamento de objetos usados em relações sexuais.

É importante ressaltar que não somos contra regras para doação de sangue. Existem vários critérios para a triagem e muitos são necessários devido a “janela imunológica”, o período em que a pessoa foi infectada mas nenhum exame é capaz de detectar. Porém, precisamos analisar o limite entre uma legislação que tem sua eficácia comprovada e os pré-conceitos existentes na sociedade que encontram reflexos em situações como essa.

A decisão de quem pode doar sangue fica a cargo de quem? Infelizmente, fica sob responsabilidade de quem está na linha de frente no momento da triagem. É importante criar mecanismos que garantam a oferta de sangue sem contaminação. Vale lembrar que todo sangue doado passa por testes e, apenas após isso, é liberado. Porém, se o próprio Ministério da Saúde informa a população que não existe grupo de risco, especialmente em casos de doenças sexualmente transmissíveis, por que essa seleção discriminatória? Deveriam proibir todas as pessoas de doarem sangue, afinal, todos podemos mentir na entrevista ou omitir comportamentos de risco. Doação de sangue não deve ser usada como diagnóstico para doenças, por mais que as pessoas tenham vergonha ou medo de procurarem unidades de saúde para fazerem exames específicos.

Enquanto o preconceito for mais importante do que salvar vidas, os bancos de sangue vão continuar com estoques baixos. E nunca sabemos quando vamos precisar de uma doação.

Autora

Gleyma Lima é cearense, jornalista e feminista por imposição da periferia. Morou no continente africano e trabalha desde sempre com projetos sociais.