O conceito de cisgenaridade e o transfeminismo

Texto de Raissa Éris Grimm.

O conceito de cisgeneridade foi criado pelo ativismo trans
como uma forma de devolver o olhar e entender de outra forma
a posição social e política de pessoas “não-trans”, que até então eram simplesmente definidas como “bio mulheres”, “bio homens”, ou como “mulheres de verdade”, “homens de verdade”, “naturalmente mulheres”, “naturalmente homens”.

Essa definição dava a entender que pessoas cisgêneras seriam naturalmente e espontaneamente seu próprio gênero — nascides já como são — enquanto nós, pessoas trans, seríamos o efeito de uma artificialidade, de uma negação da nossa “verdadeira natureza”.

Diante desse discurso, caberia simplesmente as pessoas trans fazerem o melhor possível — a nível de comportamento, intervenções hormonais, cosméticas e cirúrgicas — para se tornarem “o mais parecido possível” com as ditas “verdadeiras mulheres” ou “verdadeiros homens”. Fomos investidas pela biomedicina para construir um culto ao seu poder de transformar o corpo num material plástico e 100% transmutável — ao sabor dos mágicos dedos dos hipercirurgiões, nossos “salvadores”
(*risos*).

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Direitos sexuais e reprodutivos, saúde das mulheres e a política de violência sexual

Texto de Leticia Alves Maione para as Blogueiras Feministas.

Gostaria de começar a falar sobre direitos sexuais e reprodutivos citando um texto:

“Uma história que começa com uma ampla variedade de civilizações em que o lugar da mulher, o número e a forma dos gêneros, as práticas sexuais aceitas e as condenadas eram tão diversas como as línguas, os sistemas sociais e os cultos. E continua com a violência da conquista que, a sangue, fogo e Bíblia, instaurou a ordem judaico-cristã. Nossa história é também a do genocídio dos escravos e das escravas; a dos idiomas, das identidades de gênero, das formas de desejar e de parir (ou não) que ficaram para sempre nos porões dos navios. É a violência que fundou nossos Estados à ponta de espada, e nossa mestiçagem à ponta de violação. A tutela exercida sobre as raças, os sexos, as idades, os desejos e os corpos “inferiores”, com a lei, com o bastão e com a cruz. Nossa história é violência e tutela, mas também resistência”. Manifesto por uma Convenção Interamericana dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos, 2006: 6.

Eu trago essa parte do manifesto para chamar a atenção de como debater e pensar os direitos sexuais e reprodutivos é também resgatar as histórias de resistências de mulheres indígenas e mulheres negras à colonização, ao estupro colonial, entre as demais práticas de violação e assédio sexual, que também subjugou mulheres brancas à rígida moral sexual católica e outras violências. Essa abordagem e forma de reescrever a nossa história no Brasil é fruto, sobretudo, do trabalho de feministas negras e do feminismo anti-racista, que enxerga como os componentes de gênero e raça/etnia foram construídos para criar e reforçar as hierarquias de poder e exploração capitalista,  que miram os corpos das mulheres como território privilegiado para que esses processos e relações de desigualdade possam se dar.

Por isso, não é exagero se dissermos que o mote “o nosso corpo é o nosso território” é talvez um dos dizeres mais interessantes e críticos para falarmos sobre como a desapropriação de nossos territórios locais, na cidade ou no campo, de nossos recursos naturais, econômicos, políticos, culturais, e a retirada de direitos se utiliza e ao mesmo tempo, impacta, especialmente, os corpos e a saúde das mulheres.

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#TodasPorLAMM

Por Stella Florence para as Blogueiras Feministas.

Olá, meninas. Tenho um caso terrível para compartilhar com vocês.

Você ouviu falar do caso de uma adolescente de 16 anos que foi estuprada pelo avô? Pois é, uma monstruosidade repulsiva. Mais repulsiva ainda (e, na minha opinião, um novo estupro) é a sentença do juiz Eduardo Luiz de Abreu Costa que absolveu o criminoso jogando a culpa em LAMM, que ficou paralisada de terror durante a violência. O magistrado alega que o estupro não ficou suficientemente provado, leia um trecho:

“A não anuência à vontade do agente para a configuração de crime de estupro deve ser séria, efetiva, sincera e indicativa de que o sujeito passivo se opôs, inequivocadamente, ao ato sexual, não bastando a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte. (…) Não há prova segura e indene de que o acusado empregou força física suficientemente capaz de impedir a vítima de reagir. A violência material não foi asseverada, nem esclarecida. A violência moral, igualmente, não é clarividente, penso”.

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Se ninguém precisa ser trans então quer dizer que todos nós devemos ser cisgêneros?

Texto de Bia Pagliarini.

Eu já escrevi bastante sobre isso, mas eu fico injuriada com certas noções sobre as identidades trans. Uma delas é acerca da história das pessoas dizerem, a partir de um certo tom de “crítica aos estereótipos de gênero”, que ninguém “precisa” ser trans “por gostar de x coisa”, sendo x algo relacionado a um outro gênero em relação ao designado ao nascer de alguém.

O que fica implícito nessa suposta crítica é de que as pessoas trans só seriam trans porque estariam seguindo uma noção binária e estereotipada acerca das coisas que gostam de fazer, de forma com que elas estariam se iludindo a serem trans a partir de uma internalização de normas de gênero.

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Documentário Bambas e o machismo no samba

Anná Furtado é cantora, percussionista e sambista. Recentemente nos escreveu para falar de seu projeto, o documentário Bambas, sobre machismo no Samba: “acredito na potência que este tema tem de dar visibilidade a muitas mulheres negras da nossa história”.

O samba, um dos ritmos mais populares do Brasil, como qualquer outro espaço reproduz muito machismo, invisibiliza o trabalho de muitas mulheres, especialmente como compositoras. Porém, elas sempre estiveram presentes na história do samba.

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