A gênese da transfobia

Texto de Bia Pagliarini.

Quando dizem por aí que opressão “não se escolhe” no intuito de desconsiderar a legitimidade das identidades trans, desconfie – afinal, pessoas trans também não escolhem sofrer transfobia! Vou explicar o porquê: tudo tem a ver com duas concepções distintas da gênese da transfobia. Uma concepção individualista/liberal e outra materialista/estrutural desta gênese. O mais irônico de toda essa “polêmica” é que justamente uma concepção individualista/liberal acerca da transfobia se reivindica enquanto materialista/estrutural e até mesmo em nome de um “feminismo radical”. Vou explicar o porquê de todo esse imbróglio.

Vemos sistematicamente a tentativa de pessoas em nome de um feminismo trans-excludente de denunciar que o reconhecimento de mulheres trans enquanto mulheres seria algo “perigoso” e “mentiroso” para o feminismo. O argumento dessas pessoas que se reivindicam “feministas radicais” seria de que, como a identidade de mulheres trans se dá enquanto uma “escolha individual”, a transição como ponto de origem de toda a transfobia, a transfobia não poderia se configurar enquanto uma opressão. Ou seja: esta perspectiva, que supostamente se intitula enquanto materialista, toma como ponto de partida a categoria de indivíduo para a compreensão da gênese da transfobia, já que toda forma de violência contra este grupo de pessoas estaria vinculada a este momento fundante da transição de gênero de indivíduos.

Esta perspectiva não consegue compreender as pessoas trans enquanto grupo social, mas tão somente enquanto indivíduos que, em suas individualidades, sofreriam violência em virtude da transição. Nesta perspectiva, transfobia seria tão somente um efeito secundário de uma opressão subjacente que ocuparia uma posição de hierarquia, ou seja, a transfobia não é compreendida no seu funcionamento estrutural e estruturante das normas sociais quanto ao gênero. A perspectiva liberal/individualista, portanto, é um verdadeiro obstáculo epistemológico para a compreensão da materialidade da transfobia e das identidades trans.

SP - 20ª edição Parada do Orgulho LGBT, com o tema: Lei de Identidade de Gênero Já! Todas as pessoas contra a transfobia. Foto de Rovena Rosa/Agência Brasil.
SP – 20ª edição Parada do Orgulho LGBT, com o tema: Lei de Identidade de Gênero Já! Todas as pessoas contra a transfobia. Foto de Rovena Rosa/Agência Brasil.

Tal concepção individualista, percebam, funciona como uma luva para discursos de culpabilização da vítima. Se a gênese da transfobia se dá tão somente em virtude de sujeitos que transicionam, que individualmente se colocariam à margem das normas de gênero, subjaz aí necessariamente, portanto, uma concepção de subjetividade trans bastante específica: de que se tratariam de sujeitos “loucos”, “fetichistas”, que supostamente estariam sendo “enganados” por uma ideologia mentirosa quanto ao gênero, já que em última instância, o processo de subjetivação fora das normas cis nem ao menos faria sentido. Não faz sentido alguém “querer” ser oprimido e portanto, não faz sentido existir pessoas trans na sociedade. Toda concepção liberal/individual da transfobia tem em si subjacente uma concepção de subjetividade trans como patológica ou abjeta; a insistência em dizer que pessoas trans são mero resultados de fetiches, transtornos psicológicos ou de estruturas sociais opressoras demonstra isto. Tal concepção objetifica os sujeitos trans (destituindo a condição de sujeito para tais sujeitos), já que desconsidera o caráter revolucionário e de resistência por parte desses sujeitos, desta forma, mobiliza um discurso de tutela para com estes sujeitos – os discursos da “cura” da transexualidade, por exemplo.

Partindo para uma concepção materialista/estrutural da transfobia requer de nós uma ruptura epistemológica que faz deslocar de local a questão da existência trans enquanto “sem sentido”: o transfeminismo, enquanto crítica materialista da cisnormatividade irá realocar esta questão como forma específica de como a opressão funciona. Com isso quero dizer: tomar como evidência de que a existência de pessoas trans não faz sentido, é, por si só, uma forma de opressão que naturaliza e legitima as formas de violência transfóbicas mais explícitas: assassinatos, exclusão, negação de direitos fundamentais, como saúde, moradia, educação. O transfeminismo é o movimento de reconhecimento de que as vidas trans fazem sentido: para tanto, temos que disputar o debate público contra discursos transfóbicos que julgam nossas vidas enquanto sem sentidos. Isto porque justamente o discurso de ódio contra determinados grupos se baseia na noção de que, por não terem sentidos, vidas podem ser exterminadas e vilipendiadas.

A concepção transfeminista da transfobia compreende, portanto, essa forma de opressão como efetivamente um vetor de opressão. A gênese da transfobia se dá, nesta perspectiva, no próprio funcionamento das normas de gênero, não enquanto um mero efeito secundário de uma opressão machista subjacente, mas enquanto vetor fundamental do funcionamento destas normas. A gênese da transfobia não se realiza, tampouco se observa, a partir do momento da transição dos indivíduos trans; a gênese está inscrita no próprio funcionamento das normas que naturaliza e justifica previamente estas violências, e isto se dá independentemente à contingência das trajetórias individuais dos sujeitos no que tange às suas transições de gênero.

Enquanto socialmente as identidades trans forem tidas como tabus, as identidades trans e a discussão no que tange às formas de subjetivação dos indivíduos irão se objetivar enquanto um fato social. Enquanto as identidades trans forem vistas enquanto impossibilidades de serem vividas em sociedade, não estaremos livres das amarras das opressões. Enquanto justificarem e legitimarem a violência e exclusão contra pessoas trans, o transfeminismo será necessário.

Publicado em seu perfil do Facebook no dia 13/06/2016.

Bia Pagliarini

Sou mulher trans - síntese disjuntiva inclusiva entre travesti e transexual. Transexual ou travesti? Sim, e também outras coisas. Revoltada contra o cistema, transfeminista e interessada na forma como o discurso pode ser utilizado como arma de resistência.

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O B, o T e outras letrinhas no mundo nefasto da LGBTfobia

Texto de Bárbara Araújo para as Blogueiras Feministas.

Da sigla LGBT, o B e o T têm algumas coisas em comum. Uma delas é a capa de invisibilidade. O T tem sido sistematicamente abandonado pela letrinha dominante no movimento e pela sociedade como um todo. O desconhecimento e a falta de compreensão social em relação a esse grupo resulta na intolerância, no desprezo e na violência intensa: pessoas transgêneras são proporcionalmente as mais expostas a violência física e assassinatos dentre os grupos representados na sigla.

O B vive essa invisibilidade de outra forma. É simplesmente como se não existisse. Uma pessoa trans pode ser identificada visualmente algumas vezes. Uma pessoa bissexual, não. Não existe nada no jeito, na cara de uma pessoa que a identifique para a sociedade como bissexual. Nem mesmo quando a pessoa se assume verbalmente como bissexual a sociedade a identifica como bissexual. Renato Russo disse naquela música: “eu gosto de meninos e meninas”. Mas a sociedade continuou classificando-o como gay.

Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.
Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.

Quando uma pessoa diz que é bissexual, a sociedade lhe responde que ela está confusa. Mesmo o mais progressista dos grupos, mesmo muitos dos militantes pró-LGBT têm grande dificuldade de aceitar – de enxergar – a bissexualidade. Ou você é hétero ou é gay ou é lésbica. Se a sua vida inteira você é uma mulher que se relacionou com homens e passa a se relacionar com uma mulher, entende-se que você “virou lésbica”. Se você é um homem e a vida inteira se interessou por mulheres, mas percebe que sente desejo por um homem, você certamente “virou viado”. Não é costumeiro considerar que você pode não ter “virado” nada, mas que seja bi. Essa possibilidade é simplesmente invisível. No cotidiano, na mídia, dentro da nossa cabecinha. Quantas pessoas bissexuais você conhece? Quantos personagens de filmes e séries são bi? Quantas vezes a bissexualidade é abordada na mídia?

Isso porque, além de heteronormativa, na nossa sociedade a monossexualidade também é compulsória. Ou seja: só pode gostar de um gênero. Ser bissexual é gostar de mais de um gênero. E isso não pode. Aliás, isso não existe. A proposta de que se pode gostar de vários gêneros – não só dois, mas vários – deixa nossa mentalidade binarista perdidinha.

Recentemente, me reuni com uma amiga que é professora de sociologia para organizarmos nossa fala num debate que ocorreu na escola em que trabalhamos sobre a cultura do estupro. Ela me disse que pensava em falar sobre a importância de nomear as coisas: identificar uma situação de assédio ou abuso sexual e nomeá-la devidamente, não ficar em dúvida ou incerto. Identificar e nomear as coisas é poderoso.

Também recentemente, a escola em que trabalhamos esteve na mídia mais uma vez. Dessa vez, estudantes e professoras/es foram ao programa Encontro com Fátima Bernardes para falar (muito rapidinho, infelizmente) sobre a garantia do uso do nome social por estudantes transgeneres. A fala do Rai, pessoa querida e brilhante com quem tenho o prazer de conviver desde que comecei a trabalhar nessa escola, me fez pensar muito. Ele disse que você nunca imagina que você é trans porque você nunca ouviu falar disso na sua vida. Isso ficou ressoando na minha cabeça e me levou a pensar que é justamente isso que o B e o T têm em comum na sigla, como disse na historinha que abriu esse texto.

Eu nunca tinha imaginado que eu era bissexual durante toda a minha adolescência… porque nunca tinha ouvido falar disso. Não conhecia ninguém que fosse, na escola ninguém falava nisso, minha família nunca mencionou isso; enfim, ninguém nunca tinha me dito que isso era uma possibilidade.

Há pessoas que acham que falar de gênero e sexualidade na escola vai fazer as crianças “virarem” gays ou bi ou trans. Mas pelo contrário. Falar de gênero e sexualidade na escola é apresentar as possibilidades de ser, é mostrar um caminho pra quem sabe que é diferente, pra quem se sente diferente, mas não sabe porquê, não conhece sua própria identidade. E isso traz muito, muito sofrimento. Enquanto entender, conhecer e saber nomear é poderoso, empoderador, é um alívio.

Minha vida teria sido outra se minha escola tivesse discutido sexualidade. Hoje sou professora nessa mesma escola e vejo esse debate acontecendo, como resultado da luta de estudantes e professoras/es. Isso precisa acontecer em todo espaço educativo. Projetos de lei como os da Escola sem Partido e aqueles que denunciam uma “ideologia de gênero” são ameaças graves àqueles grupos que já se encontram minoritários em termos de direitos no espaço escolar e na sociedade como um todo. A educação para a diversidade é urgente num contexto onde um assassinato em massa por homofobia tem sido tratado como um caso de “terrorismo islâmico”. A capa de invisibilidade que cobre a transgeneridade e a bissexualidade é a mesma que cobre a própria homofobia e o sexismo em um caso como o massacre de Orlando.

É por isso que precisamos, urgentemente, falar sobre gênero. Precisamos urgentemente afirmar nossa identidade LGBT. Afirmar nossa existência frente à capa de invisibilidade fornecida pela bifobia e pela transfobia. Para nós existir, sobreviver já são formas de resistência. Nos posicionar publicamente sobre quem somos é um ato de coragem.

Bárbara Araújo

Professora de história, feminista, anticapitalista, capoeirista, flamenguista e poeta sazonal.

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Nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

*Atualização em 17/06/2016.

Recentemente, foi aberto pela Marcha das Vadias do Rio de Janeiro um evento no Facebook com o título: Turismo sexual e Olimpíadas: quebrando tabus. Organizado pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, o encontro tem como objetivo debater sobre megaeventos, turismo sexual e regulamentação da prostituição.

Sabemos que o tema da prostituição é controverso e gera longos debates dentro do feminismo. Porém, não compreendemos por que as mulheres que estão organizando e que participarão desse evento estão sendo atacadas e ameaçadas por outras feministas, que tentaram inclusive impedir que o evento seja realizado. Como construir um feminismo se as prostitutas não têm direito a falar e apresentar suas propostas?

Para muitas feministas, a prostituição deve ser proibida pois não podemos defender um sistema em que o corpo da mulher torna-se passível de compra e venda, como objetos que servem para reforçar a dominação masculina por meio da satisfação de suas necessidades e que impelem mulheres vulneráveis ou na linha da pobreza a se sujeitarem a mais essa forma de exploração. Com certeza essas são questões importantes na discussão sobre o mercado da prostituição brasileira. Pouco se fala sobre prostituição no Brasil, o tema possui grande estigma social e praticamente nenhum controle ou fiscalização. Porém, é preciso definir e diferenciar o que é prostituição e o que é exploração sexual. Partindo do pressuposto que continuaremos a viver num sistema capitalista, de que maneiras podemos pensar a questão da prostituição? O que podemos fazer para garantir a integridade e autonomia das prostitutas?

No nosso caso, apoiamos a legalização da prostituição por ser uma demanda das prostitutas, especialmente as que estão organizadas em sindicatos ou ONGs. São mulheres que querem questionar limites e repensar os estigmas relacionados as prostitutas. Têm no Projeto de Lei 4.211/2012, conhecido como PL Gabriela Leite, sua principal proposta formalizada. Acreditamos que com a legalização as prostitutas possam ter melhores condições de trabalho e ações mais específicas possam ser implementadas para combater a exploração sexual. Apenas esse projeto de lei não resolve tudo, mas pode ser um início. Pois essa é uma pauta de luta, uma reivindicação de um grupo social. Sem regulamentação, que espaço as prostitutas têm socialmente? Por isso, lutar pela regulamentação da prostituição é uma das pautas do nosso feminismo. Para além de ser uma questão do movimento de prostitutas, também é uma questão sobre mulheres, então acreditamos ser também uma questão feminista.

O turismo sexual no Brasil está muito atrelado a realidade de exploração de mulheres e crianças. Apenas ressignificar o termo não parece suficiente para que os tabus referentes a participação da prostituição em megaeventos sejam desfeitos, por isso acreditamos ser importante para as prostitutas que estão organizando esse evento debater essas questões publicamente. Abrir um diálogo não só com os comitês específicos, mas também com a sociedade em geral e outros movimentos sociais.

Na descrição do evento também é explícita a preocupação com as transformações urbanas que vem ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro, o que reflete em legitimação e aprofundamento das desigualdades socioespaciais, já que parcelas mais violentadas da população sofrem com as políticas de remoções, a militarização das periferias, o recolhimento da população em situação de rua e a perseguição aos camelôs e as prostitutas.

Há inúmeras questões sociais que perpassam o tema da prostituição e, acreditamos que nesse encontro também haverá críticas aos megaeventos e como se pretende fazer uma limpeza social da paisagem carioca. Ficamos muito satisfeitas em ver as prostitutas requerendo esse espaço e discutindo seus diferentes papéis sociais, já que para elas, quanto mais legalizadas estiverem, maiores as chances de receberem turistas que buscam sexo pago de forma segura.

Incentivar a legalização da prostituição pode ser justamente uma forma de condenar quem explora mulheres e crianças em situações precárias, pois será possível identificar quem está infringindo as leis referentes a esse trabalho. Sabemos que não há como garantir segurança completa e total para essas trabalhadoras, mas também não estamos conseguindo isso sem regularização. Quanto mais precárias forem as condições de trabalho, mais a margem da sociedade essas mulheres estarão, tendo mais chances de sofrer violência, tendo menos apoio para exigir seus direitos ou receber atendimento digno em delegacias ou unidades de saúde. Com a regularização da prostituição uma parte dessas mulheres já poderia ter acesso a direito básicos trabalhistas, como licenças e outros benefícios.

Não achamos que a prostituição é uma profissão como outra qualquer, nem que seja glamourizada por quem está propondo esse evento. Assim como o emprego doméstico, há uma série de características históricas que fomentam a prática da prostituição, além de ter as mulheres como mão de obra básica. Numa sociedade estruturalmente racista e transfóbica, a prostituição acaba sendo a atividade que acolhe a maior parte das mulheres trans, muitas delas negras, que lutam para garantir um mínimo de dignidade nesse espaço. Assim como lutamos para que empregadas domésticas tenham os mesmos direitos que outras profissões, não podemos fazer o mesmo pelas prostitutas? Por que negar a algumas mulheres o direito de decidirem sobre a autonomia de seus corpos?

Por isso, queremos deixar evidente nosso apoio as mulheres, prostitutas, feministas, transfeministas e ativistas que lutam para que a prostituição seja cada vez mais debatida, para que mais e mais prostitutas tenham voz, autonomia e protagonismo na luta feminista.

*Atualização em 17/06/2016: o 5° parágrafo teve uma frase retirada a pedido das mulheres, prostitutas, feministas e transfeministas da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro.

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.
Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013.

Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.

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Estamos exaustas, mas é preciso resistir ao preconceito e ao extermínio

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, uma amiga disse que haviam cinco planetas retrógrados e que isso poderia ser uma razão pela qual vivemos tempos tão turbulentos na política nacional. É tanta coisa ao mesmo tempo que simplesmente não conseguimos acompanhar. Porém, há um sentimento crescente contra o qual lutamos constantemente e tem nos deixado cada vez mais exaustas: o ódio.

Acordar e ler as notícias de que um homem abriu fogo contra pessoas numa boate gay em Orlando, nos Estados Unidos, promovendo a maior matança a tiros no país, cria novos cenários de horror para esse ódio. Pelo menos 50 pessoas morreram e outras 53 ficaram feridas.

Junho/2016. Familiares das vítimas nos arredores da boate Pulse em Orlando, Estados Unidos. Foto de: Steve Nesius/Reuters.
Junho/2016. Familiares das vítimas nos arredores da boate Pulse em Orlando, Estados Unidos. Foto de: Steve Nesius/Reuters.

No Brasil, essa semana tivemos a divulgação de uma matéria com perfis de gays e lésbicas que apoiam o deputado federal Jair Bolsonaro e suas propostas mais excludentes. A polarização política é uma grande arma para os conservadores, para quem defende porte de armas irrestrito, pena de morte, castração química. Para quem acredita que as leis no país são muito brandas, para quem discursa usando chavões perversos como “cristofobia”. Essas pessoas não são ingênuas, nem iludidas. São conscientes de seus atos e estão inseridas nos círculos de ódio e intolerância que tem crescido socialmente. A diferença talvez esteja apenas no fato de que não há mais pudor em dizer, com um megafone nas mãos, que alguém merece ser morto, que a estrutura social precisa ter ricos e pobres e que nem todas as pessoas devem ter os mesmos direitos. Hoje, essas pessoas sentem-se apoiadas a expressar os discursos mais reacionários porque encontram eco, são aplaudidas por outras milhares de pessoas.

Não acredito que isso seja culpa da militância de esquerda, do PT ou de figuras públicas e assumidamente homossexuais como o deputado federal Jean Wyllys. O extremismo tem encontrado ambientes sociais propícios para proliferar em todos os países. O que vejo é mais uma reação violenta ao subalterno que ousou levantar a cabeça e afrontar os alicerces sociais que edificam a desigualdade social. Mulheres, crianças, jovens, pobres, excluídos, pessoas de diferentes raças e etnias, pessoas fora dos padrões corporais e heteronormativos conquistaram espaços e direitos nos últimos anos, é de se esperar que as pessoas fiquem incomodadas com mudanças em regras sociais, que só ocorrem muitas vezes por meio de legislação específica. Esse ódio e violência é a tentativa de nos amordaçar novamente pelo medo.

A militância não é perfeita e nem mesmo suas principais vozes são unânimes. Então, para lutar contra esse ódio e violência não basta estar aberto ao diálogo, é preciso reverberar as diferentes pessoas que estão nesse movimento, por isso recomendo duas listas: 31 militantes dos direitos LGBT para você acompanhar de perto30 personalidades que lutam pelo movimento LGBT que você precisa conhecer. É preciso sempre amplificar o discurso da diversidade, da empatia e da alteridade.

O ódio tem se personificado e conquistado cada vez mais espaço em discursos públicos. Um sentimento de extermínio, intolerância e violência. É preciso não apenas eliminar o Outro, mas também o que ele significa, o que ele representa. As pessoas temem que o mundo que conhecem não seja mais o mesmo, temem dividir irrestritamente o espaço público com quem consideram uma ameaça. Os discursos intolerantes e violentos, sejam religiosos ou não, arrebatam as pessoas. Estão presentes em todas as esferas sociais. Isolados, são apenas palavras, por isso é preciso haver a interpretação do ser humano, o olhar individualista que reduz o Outro a nada. O ato de matar está aliado ao fato de não se reconhecer no Outro. E como sair desse labirinto? Onde ninguém se escuta e o medo permeia as relações? Como pode o amor entre pessoas do mesmo sexo ser uma ameaça?

Ataques extremos contra a população LGBT evidenciam a lesbofobia, homofobia, bifobia e transfobia tão presentes em nosso cotidiano. Qualquer pessoa que se desvie dos padrões heteronormativos recebe uma carga de ódio, reflexo do preconceito arraigado em nossa cultura que tem se mostrado em ações cada vez mais extremas. Diariamente gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans são mortas no Brasil. Com 600 mortes em seis anos, o Brasil é o que mais mata travestis e transexuais. O país sempre está nos primeiros lugares em rankings mundiais de assassinatos homofóbicos, chegando a concentrar, em 2012, 44% do total de mortes de todo o planeta. Esse mesmo Brasil possui 60.000 casais homoafetivos vivendo juntos, a maioria formada por católicos (47,4%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por que essa população não pode viver livremente nas ruas? Por que a resposta as diferentes formas de viver e amar é a violência? Não somos tão diferentes do atirador americano, apenas gostamos de fingir que no Brasil não existe racismo nem outros preconceitos, que somos uma mágica república da diversidade nos trópicos. Vivendo confinados em nossos nichos sociais, não enxergamos a vulnerabilidade que as diferenças enfrentam.

Em meio a comoção pública nos Estados Unidos, milhares de pessoas querem ajudar e se disponibilizam a doar sangue para as vítimas feridas. Logo descobrimos que homens gays tem regras diferentes para realizar uma doação, precisam estar celibatários há um ano para serem aptos. Essa não é a mesma regra para homens heterossexuais, mas essa restrição também é lei no Brasil, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). A Portaria do Ministério da Saúde determina que o critério de seleção seja a prática sexual de risco e não a orientação sexual ou identidade de gênero, mas não é isso o que ocorre nos hemocentros do Brasil. A estimativa é que por ano haja um desperdício de 18 milhões de litros de sangue devido ao preconceito. Pequenas regulações como essas, quando não questionadas, também demonstram o quanto não estamos dispostos a mudar nossas relações com o Outro.

No caso do ataque a boate gay em Orlando há outro fator importante, no local se realizava uma festa latina. O atentado também não deixa de lado o componente racial e étnico que estremece as relações humanas em mais um momento de êxodo de refugiados pelo mundo. Quem se beneficia dessas mortes? Quem prefere se colocar contra o islamismo ao invés de combater a homofobia e a xenofobia? Quais discursos justificam a morte dessas pessoas? Segundo esses discursos, quais pessoas não devem existir, muito menos viver?

Como feministas lutamos por um mundo mais igualitário para todas as pessoas, por uma sociedade que reconheça seus preconceitos, privilégios e exclusões. Como ativistas, nos sentimos muitas vezes inertes, vemos companheiras caírem doentes, sentimos uma dor imensa ao ver outras sendo perseguidas. Muitas não estão mais dispostas ao diálogo ou a serem eternas professoras das mentes intolerantes, porque estamos exaustas. Porém, é preciso sempre se colocar como resistência ao extermínio.

+ Sobre o assunto:

[+] Kaique e os rolezinhos: o lugar de cada um. Por Eliane Brum.

[+] Parada LGBT no Rio faz homenagem aos mortos em atentado nos EUA.

[+] Sobreviventes do tiroteio: “Havia sangue por toda parte”.

[+] A Parada do Orgulho Gay mais triste da América com o ataque em Orlando.

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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O fim de The Good Wife

Texto de Camilla de Magalhães Gomes para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série americana The Good Wife.

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Assisti ao final da série The Good Wife e rabisquei algumas ideias que podem ter sua dimensão de feminismo. Afinal, aqui pra mim, The Good Wife possui uma das melhores abordagens feministas, sem muita demagogia ou uso excessivo de slogans. Orange is The New Black é outra dessas. Grey’s Anatomysorry, fãs de Shonda — não me desce mais há um tempo, acho o texto demagógico e com forçação de barra. Então, listei aqui meus motivos pelos quais gostei tanto desses sete anos de The Good Wife:

Primeiro: coerência. verossimilhança. The Good Wife é muito isso pra mim. As personagens são construídas de um modo coerente. Não que elas sejam coerentes no que fazem (quem é…) mas a construção é coerente (cês entenderam!). E são razoavelmente reais. verossimilhantes. O final pra mim é isso: coerência com todos esses 7 anos. Nada de mirabolâncias pra marcar, agradar ou impactar (que parece ser a preferência da TV, né). Isso me fez ter vontade de ver tudo de novo, from day one.

Segundo: eu não sou nem nunca fui a boa esposa. Mas eu me identifico com Alicia. Não por ser a boa esposa, mas por ter passado por uma morte de amor. Will voltando e, como no primeiro episódio, em que ele a conduz entrando no escritório, ele a conduz no último episódio, fazendo o que a morte de um amor nos faz. A marca. O “nunca mais será igual”. “Ninguém será como você”. O amor que pode ser romântico porque nunca foi, porque encerrado tão cedo. E aqui, The Good Wife também me parece feminista e me identifico de novo: quantas mulheres heterossexuais, após o luto de um amor não conseguem refazer a vida afetiva do mesmo modo? Sentem-se como que traindo, como que em dívida, como que não autorizadas a. (o que talvez não aconteça do mesmo modo para muitos dos homens heterossexuais). O patriarcado tem caminhos estranhos. (e sim, eu chorei loucamente com Will aparecendo… Been there).

Terceiro: eu só consegui terminar dizendo “o patriarcado sempre vence”. Sim, Alicia é a boa esposa e é claro que deveríamos mesmo ter esperado esse final. Ela não deixou de ser a boa esposa. Ela precisou continuar sendo a boa esposa. A cada temporada, por um motivo diferente. Agora, para poder ser ela a disputar a política. (sim, a vida dos Clinton aí toda na série). E isso também é óbvio. Mas o que me faz realmente dizer isso é: ela não precisa ser a boa esposa apenas porque lhe é útil na sua futura carreira política, mas porque assim ela pesou estrategicamente. Claro que isso é parte da inteligência política que Alicia tem e sempre teve. Mas, assim se exige de uma mulher. Seja porque, mesmo sendo ela a pessoa com reais capacidades políticas, é o marido o reconhecido. Mesmo sendo ela capaz de fazer qualquer das coisas que quis e tentou na série de modo independente, seja porque ela não pode “trair” o marido, ainda que toda a atuação desse tenha passado por cima de Alicia e a “traído” de tantas formas. Não pode porque não lhe é publicamente permitido e não pode porque ela não se permite tal agir.

Quarto: o patriarcado sempre vence. E na trajetória de Alicia isso significou, ao final, ocupar um lugar e usar de estratégias que não pareciam ser seu modus operandi ao longo da série. Tudo para “zealously represent your client”, a frase pontualmente repetida pra justificar o “salvar o marido das merdas que fez”. “Alicia não faria isso”. Sim, faria. Coerência sim. E fez. E nessa levou Diane junto, que diferente dela, talvez poderia ser alguém de quem esperaríamos essa atitude de dobrar regras. Mas não desse jeito. Não fazendo algo que, diferente de Alicia, ela nunca fez: jogar a vida pessoal no meio dos “negócios”. O público e o privado se misturam no final de um jeito que poderia nos render tantos debates. E aí vem…

…Quinto: O TAPA DE DIANE. O. tapa. de. Diane. Ainda não consigo elaborar bem o que ele significa. Mas lembrando: Alicia dá um tapa no marido no episodio 1, logo após seu pronunciamento. O que é isso? Alicia torna-se Peter? Não acho que seja isso, exatamente. Por enquanto, só consigo apostar em algo como “o patriarcado continua vencendo mesmo”… (ali, pelo motivo 4).

Sexto: o final que não termina. Segue a vida. Nada de um deus ex-machina que dá conclusão a cada ponto, a cada personagem. Alicia segue Alicia. E lá vem Hillary candidata. Se The Good Wife é uma campanha, não sou eu a dizer. Mas.
(btw, no primeiro episódio, Diane aponta para uma foto dela com Hillary: “If she can do it, so can you”). Que série! Uma frase explica todos esses 7 anos.

[+] Foi por isto que gostámos tanto de “The Good Wife”.

Camilla de Magalhães Gomes

Professora, advogada, criminóloga wannabe e feminista. Genótipo + Fenótipo + Teimosia. Sonhando com uma vida mambembe, mais vadia e mais livre. "La frente muy alta, la lengua muy larga y la falda muy corta"

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