Uma reflexão sobre a universalidade das experiências masculinas nas narrativas

Texto de Milena Barbi para as Blogueiras Feministas.

“Broken man seeks the perfect woman”. Homem “quebrado” busca a mulher perfeita. Ele, franzino e sucumbindo à pressão da vida adulta, de camisa xadrez e óculos de grau. Ouve música alternativa e sofreu bullying na escola. Ela, bonita e inteligente, mas não muito. Usa roupas “vintage” e gosta de quadrinhos e discos. Os dois se encontram e a missão da vida dela passa ser a de levar cor e alegria para a vida dele.

The manic pixie dream girl, ou a “a garota maníaca, fadinha mágica, dos sonhos”, novo (mas nem tanto) estereótipo hollywoodiano, veio para cimentar definitivamente o apagamento das mulheres enquanto sujeitos dotados de sua própria narrativa no cinema e na literatura.

Após o esgotamento da fórmula de vários clichês de personagens femininos, a garota meiga e meio desajeitada passou a ser uma constante nos filmes cujo protagonista é considerado um cara “fofo” à espera da mulher que o salvará do mar de amargura que é a sua vida.

Eu poderia estar falando de qualquer outro lugar-comum do cinema, mas escolhi este. Escolhi este porque no fim da tarde eu vinha pra casa lendo um livro e me deparei com um sentimento de inquietude, provocado pelo autor. Ele é um destes caras “quebrados”. Sofreu muito na vida, é um eterno apaixonado, desengonçado e meio nerd. Ama todas as mulheres e não ama nenhuma. No meio das suas palavras açucaradas e cheias de anseios e sonhos eu encontrei mais daquilo que estou acostumada a encontrar nas palavras dos autores que leio sempre: um vazio e profundo nada.

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Quando vou ao banheiro: banheiros públicos como fronteiras identitárias

Texto de Josefina Cicconetti para as Blogueiras Feministas.

Situação 1 –  Estou num evento cultural e decido ir ao banheiro. Ao chegar à porta do banheiro feminino, encaro uma pequena fila que começa lá dentro. Conforme as pessoas avançam, vou chegando mais perto. Quando finalmente entro, ainda esperando, uma mulher me aborda dizendo “isto aqui é um banheiro feminino, de mulheres, não de homens, você tem que sair”. Minha reação: levar meus braços até meus seios e dizer “eu também sou mulher”.

Situação 2 – Uma breve parada na estrada, no posto de gasolina. Vou ao banheiro. Outra fila enorme. Ocupo meu lugar e uma senhora comenta em voz alta, de modo que todas as pessoas ali ouvissem: “olhem só a que ponto a sociedade chegou! Agora tenho que dividir o banheiro com isso, que nem sei se é homem ou mulher”.

Situação 3 – Estou no banheiro feminino de um restaurante. Termino de usá-lo e saio em direção à pia. De repente, uma mulher assoma a cabeça pela porta do recinto, olha ao redor, checa a placa da porta e, como ainda em dúvida, resolve perguntar: “isso aqui é o banheiro feminino?”. Eu respondo que sim. Ela replica: “certo… Desculpe, é que a luz estava muito tênue e não percebi que você é mulher”.

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Em legitima defesa da honra: a construção do discurso que sobrepõe a honra do homem sobre o direito de viver garantido a mulher

Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

O assassinato de mulheres ocorreu em todos os períodos da história brasileira. Porém, ao contrário do se pensa, a tese de ‘em legitima defesa da honra’ que absolvia o marido assassino da esposa, desde que esta estivesse atitudes indecentes, não morreu junto com a sua proibição legal. Esse discurso se enraizou na mentalidade do indivíduo social, de modo que sobreviveu a décadas e cobranças judiciais cada vez mais rigorosas. Assim, silenciosamente milhares de mulheres foram assassinadas, violentadas e posteriormente difamadas como merecedoras das agressões. Trata-se, portanto, de uma inversão de valores. Onde a vítima torna-se culpada, e o algoz torna-se defensor da própria honra.

É absurdo pensar que uma tese tão deslegitima tenha sido utilizada nos discursos dos advogados de agressores e assassinos de mulheres. Mais absurdo ainda é pensar que não se precisa voltar muito no tempo para esbarrar nessa discursiva. No dia 30 de dezembro de 1970 em Búzios(RJ), o paulista Doca Street matou sua amante Ângela Diniz com quatro tiros, três no rosto e um na nuca. A defesa alegou que o réu fora levado a isso através de provocações e má conduta de Ângela Diniz. Com esta versão passional da defesa, Doca Street foi condenado a apenas dois anos de reclusão e saiu venerado por uma multidão. Em 1981, o caso foi novamente a julgamento e Doca foi condenado a 15 anos de reclusão.

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